Mais de uma centena de pessoas concentraram-se esta quinta-feira ao final da tarde junto à estação de comboios do Cais do Sodré, em Lisboa, num protesto promovido por utentes e trabalhadores contra a “degradação do serviço de transportes públicos”.

“Mais e melhores acessibilidades”, “Transportes para todos”, “Reposição imediata de carruagens na linha verde [do metro]”, “Direito à mobilidade” e “Nós, estudantes, queremos mais transportes e passe escolar” eram algumas das frases inscritas nos cartazes exibidos pelos participantes.

Tendo em conta a elevada adesão à iniciativa, a organização – que juntou a Comissão de Utentes dos Transportes Públicos de Lisboa e a Federação de Sindicatos dos Transportes e Comunicações (FECTRANS) – decidiu levar o protesto até ao Largo de Camões.

Os manifestantes seguiram pela Rua do Alecrim, que liga o Cais do Sodré ao Largo Camões, empunhando os cartazes e gritando palavras de ordem como “transporte no privado, o utente é roubado”, “para viver a cidade temos que ter mobilidade” e “transporte público sim, privatização não”.

Entre os manifestantes estavam os vereadores da CDU na Câmara Municipal de Lisboa, João Ferreira e Carlos Moura, e alguns deputados municipais, nomeadamente do Bloco de Esquerda.

João Ferreira, em declarações à Lusa, destacou a “grande importância do protesto”, que juntou “dois importantes movimentos: dos trabalhadores das empresas dos transportes públicos - que nos últimos anos sofreram um ataque sem par que levou à degradação das próprias empresas, das condições de trabalho, mas também do serviço prestado – e o movimento dos utentes dos transportes públicos”.

Da parte dos trabalhadores, o coordenador da FECTRANS, José Manuel Oliveira, salientou a “degradação profunda do serviço prestado às populações”, referindo que “os utentes são confrontados com um serviço público de pior qualidade, com menos regularidade e mais caro”.

“Entendemos que não basta parar a privatização destas empresas públicas. É preciso pô-las a funcionar ao serviço das populações. O que vimos aqui exigir é que se desbloqueiem as condições para que as empresas possam fazer a reparação do material circulante – autocarros comboios e navios –, que sejam admitidos os trabalhadores necessários e que se resolvam os problemas que são objeto de conflito em cada uma das empresas”, afirmou, em declarações à Lusa.

O vereador comunista, que é também deputado no Parlamento Europeu, defendeu também que “travar a concessão a privados destas empresas foi um passo importante, mas agora é preciso mais”.

Cecília Sales, representante do Movimento de Utentes dos Transportes Públicos de Lisboa deu à Lusa como exemplos da “completa degradação” da rede da rodoviária Carris “a supressão e encurtamento de carreiras, grandes tempos de espera e preços que deviam corresponder a uma melhor qualidade e que desde 2011 tiveram um aumento enorme”.

Para Cecília Sales, “no Metro [passa-se] a mesma coisa”.

“O Metro era uma rede eficiente e está num estado de degradação. Às vezes em quatro acessos de uma estação funciona só um, escadas rolantes avariadas, os postos de informação das estações são encerrados”, exemplificou.

Para esta representante do movimento de utentes, “o desinvestimento continuado que se fez na área do pessoal e do material tem degradado completamente o serviço [da Carris e do Metro de Lisboa]”.

Os utentes, referiu, estão “solidários” com os trabalhadores dos transportes públicos, “porque as más condições de trabalho e a falta de investimento e de equipamentos reflete-se depois no serviço aos utentes”.

No final do protesto foi aprovada, por unanimidade e aclamação, a moção “Trabalhadores e Utentes exigem respostas urgentes!”, que será entregue ao Governo.

A subconcessão das empresas públicas de transporte urbano foi lançada pelo Governo de Passos Coelho (PSD/CDS-PP), que tinha atribuído à espanhola Avanza a exploração da Carris e do Metro de Lisboa, à britânica National Express, que detém a espanhola Alsa, a STCP (rodoviária do Porto), e à francesa Transdev o Metro do Porto.

No entanto, nove dias depois de ter entrado em funções, o executivo de António Costa (PS) suspendeu "com efeitos imediatos" o processo.