Vários proprietários de estabelecimentos comerciais da Rua Rodrigues Sampaio, paralela à Avenida da Liberdade, em Lisboa, criticaram à Lusa a existência de sem-abrigo na rua, dizendo que provocam insegurança, sujidade, além do «mau aspeto» que dão à zona.

«O problema aqui da rua é que estamos junto à avenida principal da cidade de Lisboa e há muitos pedintes, muitos sem-abrigo que fazem as suas necessidades em plena rua, lavam-se e às vezes até andam nus», disse à agência Lusa Helena Teixeira Pedro, proprietária da Farmácia Morais Sarmento, no número 21 da Rua Rodrigues Sampaio.

Aníbal Carvalho, do Auto Mini-Clube, adiantou que esta situação provoca maus cheiros, porque os cerca de seis sem-abrigo, que estão fixados essencialmente na parte sul, fazem as necessidades em árvores e deixam os restos de comida nas ruas. Maria do Céu Reis é porteira há 30 anos de vários prédios na rua e afirmou que nunca a tinha visto no estado em que se encontra atualmente, em termos de insegurança. Situação que se deve, de acordo com a mesma, ao aumento de imigrantes vindos de leste e de países africanos nos últimos anos. «Pegam-se uns com os outros e andam atrás das pessoas a pedir», explicou.

O caso suscitou a crítica da conselheira comercial da Embaixada da Áustria, Astrid Pummer, que contou à Lusa que esta é agora «uma das zonas menos seguras na cidade».

Ainda assim, a questão é sobretudo de «saúde pública», rematou Helena Teixeira Pedro, referindo que isto «dá muito mau aspeto».

A acumulação dos resíduos é outro dos problemas. José Poejo, dono do restaurante Rubro da Avenida, assinalou que «sendo uma rua focada no turismo, na restauração e nos serviços, o lixo é um incómodo».

Segundo o comerciante, «o metro quadrado [na Rua Rodrigues Sampaio] é quase tão caro como na Avenida Liberdade», pelo que esta não pode ser «esquecida», devido à proximidade de ambas.

No dia em que Lusa esteve no local apenas encontrou um sem-abrigo. O homem disse que foi parar à rua devido ao desemprego. Antes de dormir na Rua Rodrigues Sampaio, esteve num abrigo na Graça, mas a obrigatoriedade de ter um trabalho trouxe-o de volta às ruas.

A preocupação de moradores e comerciantes foi denunciada através de uma carta enviada à Câmara Municipal de Lisboa e à Junta de Freguesia de Santo António, no início do mês.

Numa resposta escrita enviada à Lusa, a Câmara explicou que tomou conhecimento do abaixo-assinado e «reuniu entretanto com os subscritores do documento e com o presidente da Junta de Freguesia de Santo António, estando a desenvolver todos os esforços e a tomar medidas no sentido de solucionar os problemas identificados».

Questionado pela Lusa, o presidente da Junta de Freguesia de Santo António, Vasco Morgado, esclareceu que daquela reunião resultou um plano especial de limpeza e prevenção do local, que será reforçado no verão. Contudo, reconheceu que a junta não tem «capacidade legal para obrigar as pessoas a sair dali».

Fonte do gabinete do Centro Nacional de Apoio ao Imigrante, do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, explicou que apesar de a situação estar sinalizada, não existem números nem perfis dos sem-abrigo da Rua Rodrigues Sampaio, porque «não são sempre os mesmos» por estarem constantemente a mudar de sítio.

«O interesse deles não é fazer daqui [Lisboa] a sua casa, nem integrarem-se», acrescentou a mesma fonte, indicando que por esta razão não aceitam a ajudada dada. Contudo, referiu que estas pessoas «não parecem arranjar problemas» no local e que este é apenas o seu «estilo de vida».

Na contagem da Santa Casa da Misericórdia, realizada a 12 de dezembro de 2013, foram sinalizados 852 sem-abrigo em Lisboa, dos quais 509 dormiram na rua e 343 pernoitaram em Centros de Acolhimento nessa noite. Segundo esse levantamento, os sem-abrigo eram na sua maioria homens, portugueses, solteiro