Mais de uma centena de lesados do papel comercial do grupo Espírito Santo manifestaram-se este sábado, em frente à entrada do hotel onde decorre o fórum mundial do Banco Central Europeu (BCE), em Sintra, reclamando o pagamento das suas "poupanças".

"Cerca de 98% das pessoas que estão aqui não sabiam o que era um papel comercial", afirmou Rui Alves, um dos manifestantes e membro da Associação dos Indignados e Enganados do Papel Comercial (AIEPC), do Grupo Espírito Santo (GES).


Os protestos começaram pouco antes das 11:00, em frente a uma das entradas do Hotel Penha Longa, em Sintra, onde este sábado termina o fórum do BCE.

"Abram os portões das prisões, metam lá os burlões", lia-se em cartazes empunhados pelos manifestantes, que protestavam ao som de buzinas, bombos e apitos.


Alguns ostentavam máscaras de Carlos Costa, governador do Banco de Portugal (BdP), de Stock da Cunha, presidente do Novo Banco, e de Mario Draghi, presidente do BCE.

Os dirigentes da associação pediram para entregar uma carta a Mario Draghi a reclamar o pagamento dos investimentos em papel comercial do GES contraídos aos balcões do Banco Espiríto Santo.

O presidente da AIEPC, Ricardo Ângelo, explicou à Lusa que na carta é solicitada uma reunião para esclarecer todo o processo, "dizendo que o Banco de Portugal, em prol de resolver e salvar a banca, lesou mais uma vez os cidadãos e os depositantes de um banco".

"O dr. Carlos Costa, com a [anunciada] recondução, não sei se ele acredita em Deus ou não, mas é uma oportunidade de se redimir. Se não acreditar em Deus, é a ministra das Finanças que lhe vai dar uma oportunidade de fazer o bem", ironizou.


Ricardo Ângelo considerou "natural" a existência de eventuais acusações judiciais contra responsáveis do GES, por práticas lesivas de clientes do BES, acrescentando que a associação "vai entregar processos-crime" contra os dirigentes das entidades bancárias.

Um dos lesados, António Cardoso, 68 anos, residente em Rio de Mouro, contou que a gestora do BES lhe garantiu, em janeiro de 2014, que o investimento de 50.000 euros na Espírito Santo participações "estava seguro" até ao montante que alegou ter sido levado a aplicar.

A deputada Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, associou-se à concentração e disse não ter dívidas de que, no caso do papel comercial do GES, houve pessoas que "foram enganadas" e merecem que as entidades reguladoras "se entendam".

"Vimos sobretudo alertar para uma resposta muito clara a estas pessoas e um entendimento o mais rapidamente possível", disse a deputada, que integrou a comissão parlamentar de inquérito ao caso GES/BES.

O Bloco de Esquerda não compreende "como é que o BCE se vem introduzir" na questão, ao pretender ser informado da solução, que "não está no seu poder", porque a resolução foi feita pelo Banco de Portugal e acompanhada pelo Governo português e cabe às entidades supervisoras e ao Novo Banco "decidir uma solução", frisou Mariana Mortágua.

"Fomos roubados! Para que serve o Banco de Portugal", lia-se numa faixa presa junto à entrada no empreendimento turístico, junto de outros cartazes com mensagem semelhantes em inglês.


As autoridades desviaram os clientes do hotel para outros acessos ao empreendimento, permitindo a concentração até junto dos portões, distantes do local da reunião do BCE. Os lesados deixaram uma carta para Mário Draghi.

Poucos depois da 13:00, a centena e meia de pessoas que entretanto engrossou o número inicial de manifestantes dispersou, com agradecimentos aos responsáveis da GNR que comandaram o dispositivo de segurança em redor do empreendimento.

O segundo fórum mundial do BCE junta na luxuosa unidade hoteleira à beira da serra de Sintra, desde quinta-feira, algumas das mais influentes personalidades do mundo da política monetária para debater o desemprego e a baixa inflação na Europa.