
Por: Hugo Beleza | 5- 5- 2011 14: 32
A agenda das Conferências do Estoril indicava que Larry King deveria falar sobre «o futuro da democracia face aos desafios
globais», mas o jornalista norte-americano, que nunca prepara as perguntas das entrevistas, garante que também nunca vai para
o ar como «uma agenda». E, ao longo de uma hora e um quarto, deixou-se entrevistar por Mário Crespo e por um auditório repleto
a quem agradeceu no final a forma calorosa como o recebeu.
O currículo do «rapazinho judeu de Brooklyn» que diz
que nunca teve de trabalhar um só dia durante a vida - «pagam-me para fazer o que faria de graça» - é muito mais pesado do
que o ar leve e familiar com que apareceu no Estoril. Camisa roxa e os eternos suspensórios - quase um traço de carácter no
homem que está no livro dos recordes do Guiness por ter estado no ar com «Larry King Live» durante 25 anos, até Dezembro passado.
Ao longo dessas duas décadas e meia fez perguntas a reis, presidentes, primeiros-ministros e a todo os tipo de figuras
públicas. Mais de 50 mil entrevistas. Reformado da CNN, num ano pleno de acontecimentos a nível internacional, gracejou: «Devia
ter ficado. Falhei o casamento...». Depois, mais a sério, e casamento real britânico à parte, King lembrou a revolução no
Egipto, a tragédia no Japão e a morte de Bin Laden.
Mas sem denunciar qualquer falta de energia e com o à-vontade
habitual - «sinto-me em casa» -, o jornalista apresentou ao auditório a esposa (a sétima, de oito casamentos) e explicou que
a sua vida profissional foi tudo menos um trabalho. «Se conduzires um autocarro na Baixa de Lisboa, vais trabalhar. Eu faço
o que é um prazer para mim», disse, relativizando o seu papel. «Sempre soube que fui apenas uma das peças de um puzzle», apontou,
referindo-se à CNN. O grande elogio entregou-o a Ted Turner, o fundador do canal noticioso, a quem chamou «visionário», mas
também um «louco». «É a pessoa mais importante nos media na segunda metade do séc. XX».
O homem que começou a fazer
entrevistas num restaurante da Florida garante que nunca planeia uma pergunta. Admite que com o tempo e as restrições da TV
teve se seguir um guião. Mas que a sua «intensa curiosidade» tratou sempre de resolver o problema das questões a colocar aos
entrevistados, que gosta mais de ouvir do que a sua voz. «Nunca aprendo nada quando estou a falar», explicou. «Gosto do momento
de não saber».
E, numa manhã em que foi ele o entrevistado, parou por breves momentos para pensar quando questionado
sobre o que há de encenação e o que há de técnico em si. «Sou eu mesmo ou estou a fazer de Larry King? Quando vou para o ar
sou eu, mas também sou eu a fazer de eu». Resolveu assim o problema. Sobre o segredo do seu sucesso, explicou: «Aprendo sempre
alguma coisa todos os dias. Não tomo as coisas por adquiridas» e «nunca vou para o ar com uma agenda».
Lembrou como
um dos melhores momentos da sua carreira o dia em que juntou na mesma mesa Yasser Arafat, Yitzhak Rabin e o rei Hussein da
Jordânia. Como a pior entrevistada, elegeu Phyllis Gates, a esposa do actor Rock Hudson - o ícone dos anos 50 e 60, cuja homossexualidade
e morte com sida surpreendeu a indústria. «Olhei para o relógio e passavam três minutos depois das nove». Tudo o que havia
para saber numa entrevista exclusiva sobre o estrela havia sido varrido em menos de cinco minutos por respostas de «sim» e
«não».
Sem reflexões profundas sobre os grandes temas da actualidade, King considerou «absurdo que se mate por causa
de terra» sobre o conflito israelo-palestiniano, «porque ambos os lados têm razão», disse que não é uma pessoa «vingativa»,
mas que, no caso de Bin Laden, a «vingança funcionou», que olha para os novos media como «incríveis», ainda que esteja a «tentar
entendê-los». Sobre si, confessou nunca ter conseguido «a paz interior total» e o seu maior desejo: «Ser a pessoa mais velha
que alguma vez viveu».
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