O presidente da Ongoing revelou esta quinta-feira que, quando Passos Coelho assumiu o cargo de primeiro-ministro em 2011, várias pessoas ligadas ao Governo lhe pediram que facilitasse o regresso às secretas do ex-"espião" Jorge Silva Carvalho.

"Algumas pessoas ligadas ao Governo vieram falar comigo para dizerem que ele (Silva Carvalho) era muito preciso para a Nação", relatou Nuno Vasconcelos durante o julgamento do caso das secretas, no qual está acusado de corrupção ativa para ato ilícito, relacionado com o facto de, em finais de 2010, ter resolvido contratar o ex-diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) para os quadros da Ongoing.


Nuno Vasconcellos explicou que, perante os pedidos insistentes das pessoas ligadas ao Governo, decidiu falar com o padrasto e com Rafael Mora, que pertenciam ao conselho de administração da Ongoing, para resolver o assunto da melhor forma, até porque, como presidente da Ongoing, o que não queria era "incompatibilizar-se com o primeiro-ministro e o governo".

Entretanto, o caso das secretas rebentou e Silva Carvalho não regressou às secretas, numa altura em que era apontado como provável novo secretário-geral do Serviço de Informações da República Portuguesa (SIRP).

Conforme recordou Nuno Vasconcellos, Silva Carvalho não voltou às secretas e acabou por sair da Ongoing no começo de 2012, depois de no verão de 2011 ter dado uma entrevista "muito forte" que gerou ataques e a abertura de processos judiciais.

"Silva Carvalho veio dizer-me que achava melhor sair da Ongoing para não estar a prejudicar a empresa", recordou Nuno Vasconcellos, observando que a história espiões/Ongoing foi uma "mistura explosiva" que causou danos irreparáveis à sua empresa.


A acusação/pronúncia sustenta que, em finais de 2010, o presidente da Ongoing decidiu contratar Jorge Silva Carvalho para os quadros da Ongoing, para que este último obtivesse informação privilegiada das secretas para aquele grupo empresarial, imputação que o arguido Nuno Vasconcellos, acusado de corrupção para ato ilícito, nega totalmente.

Em resposta a perguntas do seu advogado, Francisco Proença de Carvalho, o presidente da Ongoing tentou desmontar a acusação, observando que se, por hipótese, pretendesse obter informações das secretas através de Silva Carvalho, seria mais proveitoso que este tivesse permanecido no SIED, em vez de ir para a empresa privada.

Nuno Vasconcelos foi confrontado pela procuradora Teresa Almeida com SMS que alegadamente demonstravam o interesse da Ongoing em saber pormenores sobre cidadãos russos ligados à aquisição do porto de Astakos (Grécia), tendo o arguido reiterado que desde, muito cedo, desistiu do negócio, embora tivesse almoçado com os ex-ministros russos e amigos de Putin em busca de outras oportunidades de investimento.

O presidente da Ongoing queixou-se que o processo das secretas destruiu a sua vida pessoal e familiar, impedindo que a empresa conseguisse obter empréstimos na banca estrangeira, dificultando também muito a atividade em Portugal.


"A Ongoing ficou com um problema de reputação e ninguém empresta dinheiro a uma empresa com problemas de reputação", disse Nuno Vasconcellos que, a dado passo, admitiu que, face às crescentes dificuldades, o grupo está a ser desativado em Portugal.


Nuno Vasconcellos revelou ainda que, por causa dos efeitos negativos do processo das secretas, chegou a pensar demitir-se de presidente ou até mudar o nome da empresa Ongoing.

Observou contudo que apesar de o BES e a PT terem "falido", a Ongoing ainda resiste quer em Portugal. quer no Brasil onde ainda tem muitos negócios e empregados.

Durante a manhã, Nuno Vasconcellos indicou ao coletivo de juízes que a atual situação financeira da Ongoing em Portugal é complicada, tendo uma “dívida enormíssima”.

Justificou que nada fazia prever que os investimentos no Grupo Espírito Santo e na PT tivessem sido tão prejudiciais para a Ongoing.