O Ministério Público (MP) pediu, esta terça-feira, a instauração de um inquérito para averiguar a eventual prática de um crime de falsas declarações prestadas por um primo de um dos acusados da autoria dos incêndios da Serra do Caramulo.

Os arguidos Luís Patrick e Fernando Marinho estão acusados de, na noite de 20 para 21 de agosto de 2013, terem andado de mota pela serra a atear vários focos, que resultaram nos incêndios de Alcofra, Meruge e Silvares.

Segundo a acusação, o primeiro incêndio, de Alcofra, teve início às 23:54 de dia 20, mas testemunhas ouvidas durante sessões anteriores admitiram que deverá ter deflagrado antes disso, uma vez que se tratava de um local de difícil visibilidade.

Ao quarto dia de julgamento, que decorre na secção de proximidade de Vouzela, foi ouvido Luís Rui Silva, primo de Luís Patrick, tendo o seu depoimento ficado marcado por contradições e motivado avisos do juiz presidente de que, se não falasse a verdade, poderia incorrer num crime de falsas declarações.

Luís Rui Silva contou que, nessa noite, ele e a mulher saíram do Forum de Viseu cerca das 23:00, estiveram um pouco na Feira de São Mateus e depois foram embora para Alcofra (Vouzela), onde pararam no «café do barbeiro» para aceder à Internet sem fios, «pouco antes da meia-noite».

Contou que daí a «cinco/dez minutos» chegou o Luís Patrick, de mota, com a Bruna, que o primo lhe disse ser «um namorico de férias». A sua mulher ficou na mesa, a Bruna sentada na mota e ele a conversar com o primo e com o dono do café.

Acrescentou que depois, «o Patrick ou o barbeiro (dono do café)» disse que havia fogo e decidiram ir vê-lo. O primo levou a Bruna a casa, depois foi guardar a mota e saíram do Largo da Nogueira, de carro, às 00:45, em direção à serra.

Depois de o juiz ter estimado os tempos que Luís Rui Silva demoraria nos vários sítios onde esteve e no percurso entre Viseu e Vouzela, concluiu que teria de chegar ao café «meia noite e cinco/meia noite e dez».

«Ontem (segunda-feira) estiveram cá os proprietários e disseram que a essa hora o café já estava fechado. E disseram os três, portanto, ou estavam a mentir eles, ou está o senhor», afirmou o juiz, acrescentando que o proprietário do café referiu que, nessa noite, não falou com ele e que o Luís Patrick não esteve lá.

Ainda foi dada a possibilidade a Luís Rui Silva de corrigir o que tinha declarado, mas como este não o fez, o procurador do Ministério Público pediu a instauração de um inquérito para averiguar a eventual prática de um crime de falsas declarações.

O juiz determinou então a extração de uma certidão e a sua remessa ao Ministério Público de Viseu, com vista «à instauração de um procedimento criminal» contra esta testemunha.

Luís Patrick e Fernando Marinho estão acusados, em coautoria, de um crime de incêndio florestal, de quatro homicídios qualificados e de 13 de ofensa à integridade física qualificada. Sobre o primeiro recai também a acusação de condução sem qualificação legal.

O julgamento prossegue sexta-feira de manhã.