A ex-diretora de um lar juvenil de Reguengos de Monsaraz começou esta segunda-feira a ser julgada, à porta fechada, no Tribunal de Évora, por abuso sexual de menores, maus tratos, sequestro agravado e peculato, num processo com mais oito arguidos.

Antes da primeira sessão do julgamento, que se iniciou com cerca de 40 minutos de atraso e sem a presença de uma das arguidas, que foi dispensada, tanto os arguidos como os seus advogados escusaram-se a prestar declarações aos jornalistas.

De acordo com a acusação, a que a agência Lusa teve acesso, o tribunal vai julgar, além da antiga diretora técnica do lar de infância e juventude, quatro elementos da sua equipa, dois funcionários, a Santa Casa da Misericórdia de Reguengos de Monsaraz, no distrito de Évora, e o respetivo provedor.

Vânia Pereira, de 36 anos, está acusada de um total de 24 crimes, 11 dos quais de abuso sexual de menor dependente, quatro de maus tratos, três de maus tratos em coautoria, três de sequestro agravado em coautoria e três de peculato.

Os quatro elementos da equipa técnica do lar e dois funcionários vão responder por crimes de maus tratos e sequestro agravado, enquanto a instituição e o respetivo provedor estão acusados dos mesmos crimes mas por omissão.

Filipa Canhoto, mãe de uma das vítimas de peculato, tentou esta segunda-feira de manhã assistir à primeira sessão do julgamento, mas a permanência da mulher na sala de audiências não foi autorizada, tal como aconteceu com outras pessoas e jornalistas.

Em declarações aos jornalistas, relatou que o filho, na altura dos factos com 18 anos, "foi lesado em 4.800 euros", porque "tinha uma pensão que nem ele tinha conhecimento que existia" e que, durante três anos, "foi levantada da conta bancária pela doutora Vânia".

O jovem, de acordo com a mãe, foi também alvo de "jogo psicológico por parte de funcionários do lar e de agressões físicas por parte de colegas", mas nunca contou nada porque "era ameaçado de que se contasse não ia passar os fins de semana a casa".

Considerando que os arguidos devem ser "todos condenados e pagar por aquilo que fizeram", Filipa Canhoto contou que foi vítima de violência doméstica e "dada como má mãe" e que o filho foi-lhe retirado e encaminhado para a instituição.

"O que lá faziam era muito pior do que aquilo que a mãe fazia em casa, porque o meu filho em casa nunca sofreu qualquer tipo de agressões físicas ou psicológicas", disse, acrescentando que o jovem "está a guardar aquilo que sabe para falar" em tribunal.

A antiga diretora técnica do lar foi detida a 14 de abril de 2015 e presente a primeiro interrogatório judicial, ficando a aguardar julgamento em liberdade, com suspensão de funções e proibição de contactos com os menores da instituição.

A acusação resulta de um inquérito relativo a factos alegadamente praticados, entre 2008 e 2014, no Lar Nossa Senhora de Fátima da Santa Casa da Misericórdia de Reguengos de Monsaraz, encerrado em maio do ano passado e que acolhia crianças e jovens em risco.

Pouco mais de um mês após a detenção da mulher, a Misericórdia de Reguengos de Monsaraz fechou a instituição para proceder a uma reestruturação e repensar o seu modelo de funcionamento, transferindo 24 crianças e jovens institucionalizados para outros lares semelhantes noutras localidades.