Os pais dos jovens que morreram no Meco vão ser recebidos pelo Papa no próximo dia 24 de junho, no Vaticano.

Foi a 15 de dezembro de 2013 que a tragédia do Meco abalou o país e especialmente as famílias dos seis estudantes da Universidade Lusófona  que perderam a vida depois de terem sido arrastados por uma onda , na praia do Moinho de Baixo, no Meco. 

Os familiares das vítimas continuam a questionar as circunstâncias do incidente e prometem não baixar os braços enquanto todas as dúvidas não forem esclarecidas. 

Sobre a vida destas famílias paira em suspenso a possibilidade de  as mortes terem ocorrido no contexto de uma praxe académica e de ter havido um envolvimento direto de João Gouveia, «dux» da Lusófona e único sobrevivente da tragédia, nos acontecimentos. 


                                                        João Gouveia


O cenário de praxe foi colocado em cima da mesa logo nos primeiros dias que se seguiram à tragédia. Os jovens tinham sido vistos a ir para a praia vestidos com o traje académico e sabia-se que nessa noite  apenas João Gouveia teria levado o telemóvel consigo

A investigação conduzida pela TVI apontava para este mesmo enquadramento. As mensagens trocadas por uma das vítimas, Joana Barroso, e duas amigas, confirmaram  um fim de semana do Conselho de Praxe (COPA) da universidade e os documentos a que a TVI teve acesso mostraram que esta não era uma situação inédita: terão ocorrido outros fins de semana de praxes,  onde terão acontecido rituais violentos, com os praxados amarrados e obrigados a rastejar. 

Mais, testemunhas da localidade de Aiana de Cima, onde os estudantes estavam alojados nesse fim de semana, que foram ouvidas pelo MP,  asseguraram ter visto os estudantes a rastejar com pedras

                                                         Praia do Meco

Apesar das várias suspeitas, a versão de João Gouveia foi outra e afastou a ideia de praxe.  O único sobrevivente garantiu às autoridades que não houve qualquer ritual académico naquela noite de dezembro. Declarações que terão pesado na decisão do MP quando o inquérito foi arquivado. 

Depois de sete meses de investigação,  o MP de Almada concluiu, a 25 de julho, que tudo não passou de um acidente. De acordo com o despacho de 100 páginas, o grupo de sete jovens, onde se incluía João Gouveia, foi arrastado para o mar, surpreendido por uma onda de grandes dimensões, quando conviviam no areal. 

De imediato, a decisão foi contestada pelos familiares das vítimas que não só questionaram o arquivamento, como defenderam que o mesmo apenas adensava ainda mais as dúvidas em relação incidente. 

Para o advogado das famílias, Vitor Parente Ribeiro,  o arquivamento do inquérito passou pela descredibilização de todas as testemunhas que garantiram ter visto os estudantes a ser praxados. As testemunhas em causa chegaram mesmo a ser ouvidas quatro vezes, algumas delas em casa e não no tribunal como seria normal, segundo o que a TVI apurou.
  «O que é que estas testemunhas teriam a ganhar em dizer seja o que for que não fosse a verdade?», questionou o advogado.



                                                                        Praia do Meco

Outra das contradições apontada pela famílias prende-se com as localizações celulares. 

Uma análise aos documentos fornecidos pela Vodafone à Polícia Judiciária mostra que os telemóveis de João Gouveia e de uma das vítimas, Catarina Soares, acionaram na noite fatídica as antenas da Costa da Caparica e de Oeiras norte, em vez da antena do Meco. Perante estes dados,  as famílias acreditam que João Gouveia poderá ter fugido da praia e regressado, mais tarde, para simular uma situação de pré-afogamento. 

A TVI sabe que nem a PJ nem o Procurador da República titular deste caso fizeram qualquer análise a esta informação que esteja registada no processo. 

Mas as incongruências não ficam por aqui. 

A TVI apurou ainda que  a roupa que João Gouveia usava na noite fatídica foi entregue à Polícia Judiciária três meses depois da tragédia ainda molhada. Uma situação que intriga os familiares das vítimas.
 «Qualquer pessoa normal, sem estar nas lides da investigação criminal percebe que ao fim de três meses não há roupa nenhuma que se mantenha molhada», questionou o advogado Vítor Parente Ribeiro.

A TVI noticiou, também, a 1 fevereiro de 2015, que a roupa de João Gouveia tinha vestígios de água doce e não do mar. Para as famílias das vítimas é a confirmação de que o Dux da Lusófona nunca esteve no mar na noite da tragédia:


                                     Análises detetam vestígios de água doce 

João Gouveia não compareceu no debate instrutório convocado para o dia seguinte, 2 de fevereiro. O pai do "dux" assegurou, nesse dia, que "a estratégia nunca foi o silêncio". 

A procuradora da República, que representa o Ministério Público, pediu para ouvir novas testemunhas no debate instrutório. 

Dias depois, um perito em afogamento desmontou a versão de afogamento de João Gouveia, não acreditando que o único sobrevivente da tragédia tenha estado dentro da água, no mar onde morreram os outros seis jovens.

A 4 de março, o Tribunal de Setúbal decidiu não levar a julgamento o jovem. Os pais dizem que o processo foi arquivado com prova proibida.

A 15 de março foi inaugurado um memorial, precisamente na praia do Meco, em homenagem às vítimas. 


                              Memorial em homenagem às vítimas