Entre as 229 testemunhas que a acusação do Processo Marquês quer chamar a tribunal, estão nove antigos membros dos Governos de José Sócrates. Todos foram já ouvidos no decorrer do inquérito.

Há um depoimento em concreto, o do antigo ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, que parece dar força à tese do Ministério Público. Este ex-responsável político diz que foi o antigo primeiro-ministro quem levou Armando Vara para a administração da Caixa Geral de Depósitos. 

Luís Campos e Cunha esteve apenas quatro meses com a pasta das Finanças, entre março e julho de 2005. Acabou por pedir demissão e, já este ano, durante a comissão parlamentar à CGD explicou o motivo.

"Como ministro das finanças fui pressionado pelo primeiro-ministro, de então, para demitir a administração da CGD e substituir a administração da CGD. Disse-o de forma reiterada e crescente com o passar do tempo, passando inclusivamente a serem sugeridos os nomes de Santos Ferreira e António Vara. Eu não demitiria ,nem demiti a administração da CGD."

Quando há três anos realizaram buscas à casa de José Sócrates, no edifício Heron Castilho, os investigadores encontraram a carta de demissão de Luís Campos e Cunha, que apesar de documento oficial, estava na residência do ex-chefe do Governo. Na missiva podia ler-se:

"(...) A pressão sistemática relativa à substituição da administração da CGD é contrária às reformas que este grupo necessita e recuso-me a alterar as pessoas sem uma estratégia (...) " 

Armando Vara acabaria nomeado pelo ministro das Finanças Teixeira dos Santos, também ele arrolado como testemunha, para um mandato que se prolongou até 2007.

Na tese do acusador, José Sócrates e Vara acordaram que o novo administrador beneficiaria os interesses do então primeiro-ministro e de terceiros, com a certeza de que repartiriam as contrapartidas alcançadas, sem olhar aos interesses financeiros e comerciais do banco público. 

A acusação diz que o empreendimento Vale do Lobo conseguiu um empréstimo de quase 300 milhões de euros, graças à intervenção de Sócrates e Armando Vara, que terão repartido entre si dois milhões de euros em subornos. 

Sócrates garante que nunca pressionou o responsável pela pasta das Finanças.

Se o caso chegar a julgamento, entre as testemunhas a ouvir, estarão ainda outros ex-ministros. Ana Paula Vitorino, uma atual ministra do Governo de António Costa, que à data dos factos descritos na acusação, era secretária de estado.

Mário Lino e António Mendonça, dois ex-ministro das obras públicas; Francisco Nunes Correia, ex-ministro do ambiente, e José Pinto Ribeiro, ex-ministro da Cultura, são os restantes ministros.

Mas uma governante do executivo de Durão Barroso também é chamada pelo MP. Celeste Cardona esteve na administração da Caixa Geral de Depósitos, entre 2004 e 2008.

Há ainda José Condes Rodrigues e Paulo Campos, ex-secretários de Estado, e Vitor Escária. Este último foi assessor de José Sócrates e do atual primeiro-ministro, António Costa. Pediu demissão em julho deste ano, por causa das viagens pagas pela Galp.