São centenas de documentos que põem em causa a gestão da Federação Portuguesa de Taekwondo, um desporto olímpico, medalhado, financiado com dinheiros públicos. José Luís de Sousa é o homem que, apesar das denúncias ao mais alto nível, se mantém intocável à frente da federação.

A sua presidência atravessou já vários Governos, diferentes secretários de Estado, uma teia de cumplicidades que conta com a conivência do Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), que acumula na gaveta queixas de gestão danosa.

As primeiras denúncias de que eu tenho conhecimento começaram, o primeiro pedido de sindicância começou em 2012. Estamos em 2018, já passaram vários secretários de Estado, já passaram vários Governos e nada acontece. Mantém-se tudo tal e qual como está”, diz à TVI Hugo Pereira, treinador de Taekwondo.

 

Eu acho muito complicado que, após tanta denúncia, e estamos a falar de matéria de facto, não estamos a falar em papéis, em documentos que nós enviamos para o Instituto Português do Desporto e da Juventude, não exista uma resposta por parte daquele organismo que tutela a federação sobre o que está a fazer, sobre o que fez ou sobre o que pretende fazer”, refere Paulo Diniz, presidente da Mesa da Assembleia da Associação Taekwondo Lisboa.

 

Como é que uma pessoa destas consegue manter-se em funções e fazer o que quer durante tanto tempo? É muito estranho”, questiona Daniel Dias, treinador de Taekwondo

Há muito que a federação está moribunda. Falida. Mesmo assim, ninguém consegue afastar José Luís de Sousa, um sargento da Força Aérea na reserva, que insiste em manter-se no poder e que tem ao seu lado, como número dois, um homem da polícia.

Ele tem contactos dentro da polícia, tem contacto de entidades do Exército, e nós nunca sabemos o que é que ele é capaz de fazer. Caramba, ela ameaçou-me que me dava uma carga de porrada. Ele ameaçou-me que mal saísse dali [do edifício da federação], na esquina, você não sabe a velocidade com que eu saí dali. Eu estava em pânico, eu saí a correr”, revela à TVI sob anonimato uma ex-funcionária da Federação Portuguesa de Taekwondo.

São muitas as irregularidades detetadas ao longo dos anos. Num dos casos, por exemplo, questionam-se mais de 30 mil euros em quilómetros debitados à federação, o equivalente a mais de 84 mil quilómetros realizados só num ano.

“Quando eu faço uma deslocação para um campeonato, que ocorre por exemplo no Porto, o presidente vai a esse campeonato. Eu moro em Santarém, tenho de ir para o Porto, é natural que eu debite essas deslocações para o Porto”, explica à TVI o Federação Portuguesa de Taekwondo.

No extrato de conta da federação, a que a TVI teve acesso, muitas dessas deslocações, foram pagas ao presidente que se limitou a justificar genéricamente com deslocações de corpos diretivos. Noutros casos, José Luís de Sousa alegou deslocação com viatura própria, mas nunca especificou os itinerários ou disponibilizou sequer os mapas de quilómetros.

“Eu nunca os mostrei [os mapas de quilómetros] porque no momento em que os estavam a pedir era uma assembleia-geral, como deve calcular numa assembleia-geral, naquele local, não se levam os documentos para apresentação desses mapas. (…) Posso informar que esses mapas estão nas contas. Se entenderem e quiserem ver, a federação terá todo o prazer e honra em mostrar esses documentos”, justica o presidente da federação quando questionado pela TVI.

Mas quando a jornalista Ana Leal pediu para ver os mapas, começaram as desculpas. A verdade é que José Luís de Sousa tinha mentido. Os mapas de quilómetros nunca foram disponibilizados, nem mostrados, ao contrário do que tinha dito para as câmaras da TVI.

Valores considerados anormais que, entre outras denúncias, chegaram ao conhecimento do então secretário de Estado Alexandre Mestre e do presidente do Instituto do Desporto, Augusto Baganha, sem que nunca

"Como os mapas de quilómetros nunca nos chegaram, pedimos a V. Exa. que no uso das suas competências de fiscalização, verifique se os dinheiros públicos foram adequadamente aplicados”, lê-se numa das denúncias apresentadas.

Nem a secretaria de Estado, nem o Instituto do Desporto deram qualquer resposta.

Estamos a falar de dinheiros públicos, estamos a falar de dinheiro de impostos dos portugueses. Portanto, é muito complicado vermos atletas que não têm dinheiro para fazer deslocações lá fora, para participar em campeonatos, para participar em estágios, que não conseguem fazer a sua preparação para irem a uns jogos olímpicos condignamente, tendo de pagar despesas do próprio bolso. E depois temos despesas dessas que não são justificadas e o Estado português não quer saber o que é feito com esse dinheiro que é entregue à federação. A mim preocupa-me. Eu sou português, eu pago os meus impostos”, realça o treinador Hugo Pereira.

A falta de transparência das contas é recorrentemente questionada. Os relatórios de contas apontam essas reservas, refere à TVI Pedro Valentim, treinador de de Taekwondo. Os mesmos pontos críticos são levantados no relatório de contas de 2014. Em 2015 também...e assim continua

A Federação encontra-se numa situação de falência técnica. Não certificámos as contas do exercício anterior (… ) Os saldos iniciais evidenciaram incoerências, há gastos que não foram reconhecidos contabilisticamente.” 

Pedro Valentim sublinha que se está a falar de muito dinheiro para justificar: “Imagine, no último ciclo olímpico, o Estado português deu à Federação Portuguesa de Taekwondo cerca de 1,2 milhões de euros. Para onde é que foi esse dinheiro?”.

A Pedro Ferreira, atleta de Taekwondo, campeão nacional na sua categoria, é sempre a família que suporta todas as despesas quando vai representar Portugal em campeonatos. Em sete anos de Taekwondo, Pedro Ferreira nunca conheceu outra realidade. Os exemplos sucedem-se.

Em causa poderá estar também a retenção ou desvio de dinheiros para pagamento de seguros de saúde. São muitos os casos de atletas, que apesar de terem pago à federação o seguro, não faziam parte da lista de segurados, conforme contam à TVI Paula Silva, presidente da Associação Taekwondo Lisboa, e o treinador Daniel Dias

Mais uma vez, as queixas enviadas à Secretaria de Estado e da Juventude acabam por cair em saco roto. Emídio Guerreiro era o secretário de Estado, que reencaminha o assunto novamente para o Instituto do Desporto. Augusto Baganha era ainda o presidente e o assunto morre mais uma vez ali.

Mesmo sabendo disso, o secretário de Estado continuou a financiar a Federação Portuguesa de Taekwondo. Isto apesar de já haver a suspeita de a federação ter falsificado a assinatura de uma das companhias de seguro.

Num documento, entregue no IPDJ pela Federação de Taekwondo, fica a garantia por parte da companhia de seguros que estão inscritos mais de 3000 atletas com seguro.

O documento, afinal, é falso. Numa declaração a que a TVI teve acesso, é a própria companhia de seguros a confirmar isso mesmo:

“Confirmo que a declaração não foi emitida pelos nossos serviços, embora tenha a minha assinatura e carimbo da empresa. A última declaração passada pelos nossos serviços data de 16 de janeiro de 2013".

Um dado importante que terá chegado ao conhecimento do  Instituto do Desporto, que mais uma vez ignorou.

Já fui medalhado em vários surdolímpicos e quando recebi as medalhas, pensei: agora que sou medalhado vai chegar a hora de receber um apoio, mas não, nunca aconteceu!”, conta Helder Gomes, atleta surdolímpico

O currículo é brilhante. Helder Gomes foi  duas vezes medalha de Bronze em campeonatos do mundo, Bronze também nos surdolimpicos de Sófia, ocupa a quarta posição no “ranking” mundial.

Em 2017, Hélder Gomes viu-se obrigado a desistir pela falta de apoios: "Todo o meu percurso foi positivo, consegui muita coisa, mas por outro lado, não senti que aquilo que eu consegui fosse valorizado pela federação e não estava feliz com aquilo que estava a acontecer. É difícil para mim pôr isto em palavras, mas achei que o melhor para mim era desistir e tentar seguir o meu caminho por outra estrada".

Dos 8700 mil euros anuais a que tem direito, Helder Gomes nunca recebeu um tostão, apesar da verba estar orçamentada.

Esse dinheiro que é dado à federação nunca nos chega, nunca nos chega esse dinheiro. Tenho conhecimento que existem apoios que são dados à federação, a verdade é que muito provavelmente ele nunca passa de lá".

Muitos dos valores orçamentados e enviados para o Instituto Português do Desporto, poderão ter sido mesmo adulterados e inflacionados. Uma ex-funcionária da federação revela à TVI que teve de cumprir essa tarefa porque “não tinha outra opção”. O clima era de intimidação, com ameaças físicas incluídas.

Paulo Diniz, da Associação Taekwondo de Lisboa, também revela que foi vítima de uma agressão, injúria e de uma ameaça de morte.

A estratégia é intimidar, garante as testemunhas, que recorda o facto de José Luís de Sousa, ter ao seu lado, como vice presidente da federação, Jerónimo Torrado, Intendente da Polícia de Segurança Pública.

“Tudo isso vai-lhe dando um sentimento de impunidade e ele vai continuando para a frente. Este sentimento de impunidade dá-lhe força. Esta inoperância que existe, esta proteção que ela vai sentindo, vai-lhe dando força para continuar este caminho”, afirma o treinador Pedro Valentim.

À pergunta colocada pela jornalista Ana Leal sobre se se sente “intocável”, o presidente da Federação de Taekwondo responde: “Não senhora”.

As assembleias-gerais espelham isso mesmo com as contas a serem aprovadas por maioria. A prova disso mesmo foi o que aconteceu na assembleia-geral de 26 de maio de 2016. Confrontado com contas irregulares, José Luís de Cousa chega a apresentar a demissão, para logo a seguir dar o dito por não dito. É o posso, quero e mando, com a conivência do poder político.

O parecer do Tribunal Arbitral do Desporto considerou que José Luís de Sousa não podia continuar como presidente da federação perante a renúncia do cargo, mesmo assim, o Instituto Português do Desporto continuou inexplicavelmente a legitimar a sua permanência à frente da federação.

Em comum, há um mesmo nome: Augusto Baganha, o homem que atravessa vários Governos e que, ainda hoje, se mantém à frente do IPDJ.

Rui Bragança, atleta olímpico de Taekwondo, bi-campeão Europeu, vice-campeão do Mundo, número 11 no “ranking” olímpico, é o atleta português mais medalhado de Taekwondo, atualmente a viver em Madrid. Chegou a adiantar dinheiro à federação portuguesa, cerca de 14 mil euros no total,  para poder garantir a sua presença em provas internacionais. Nunca lhe devolveram o dinheiro

A lista de credores já vai longa. Rui Bragança é apenas mais um entre muitos. Ele que chegou a viajar em “low cost” e a dormir em hostéis para representar Portugal.

Confrontado pela jornalista Ana Leal sobre se não tem vergonha que a Federação Portuguesa de Taekwondo deva dinheiro que foi pedido adiantado ao atleta mais medalhado português, José Luís de Sousa é taxativo: “Não. Não tenho vergonha nenhuma, minha senhora”.

Em Portugal, a federação bateu no fundo, arrastando com ela, atletas que até as inscrições em provas, têm agora de pagar.

Sem estatuto de utilidade pública, há um ano, retirada pelo atual secretário de Estado do Desporto, a Federação Portuguesa de Taekwondo continua ilegalmente a convocar a Seleção Nacional. Ou seja, os títulos que vierem a conquistar não têm qualquer validade para o Estado português.

Num dos casos, por exemplo, a federação não só convoca a Seleção Nacional para o Campeonato da Europa de Cadetes, como pede ainda 100 euros a cada atleta para se inscrever. Estranhamente é pedido para que o dinheiro seja depositado na conta pessoal do treinador principal Ruben Oliveira, em vez de ser na conta da federação.

O mesmo aconteceu no Campeonato Europeu de Juniores, em que foi pedida a transferência de 1000 euros por atleta para a conta pessoal do selecionador nacional.

Por explicar estão também dezenas de transferências para a conta da companheira do presidente da federação, num total de mais de 45 mil euros.

José Luís de Sousa está há mais de 10 anos no poder. Continua intocável.