Os internamentos em hospitais portugueses motivados por casos que podiam ser controlados nos centros de saúde aumentaram mais de 7% na última década, o que aponta para alguma incapacidade dos cuidados primários, indica um estudo português.

O estudo sobre o impacto do internamento dos doentes crónicos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), elaborado por cinco especialistas, refere que «aumentou consideravelmente» o volume de casos clínicos por patologias que podiam ser tratadas nos cuidados primários, um acréscimo tanto em valor absoluto, como face à população residente em Portugal.

Em 2004 havia 1.475 internamentos evitáveis por 100 mil habitantes, quando, em 2012, eram quase 1.600, ano em que representaram 18% de todos os internamentos no SNS.

No estudo, que é apresentado pela empresa IASIST nesta segunda-feira e a que a Lusa teve acesso, foram analisados casos referentes a seis patologias e que poderiam não ter sido encaminhados para cuidados hospitalares, que são mais complexos, mais dispendiosos e com riscos acrescidos para o doente.

Apesar disso, os autores referem que não foi seu objetivo analisar o impacto económico desta procura hospitalar potencialmente evitável.

O aumento destas situações, no entanto, num quadro em que os internamentos globais diminuíram, leva os autores a considerar que os cuidados de saúde primários poderão não ter conseguido «ser suficientemente resolutivos (...), manifestando uma incapacidade crescente para travar uma procura inadequada de internamento hospitalar».

Dentro das seis doenças analisadas, o estudo faz uma distinção entre os internamentos que podiam ter sido evitados, mesmo no momento da procura hospitalar e aqueles em que o internamento é necessário mas que podiam ter sido evitados através de controlo dos cuidados primários.

Do total de internamentos potencialmente evitáveis, o estudo refere que 60% dizem respeito a internamentos necessários no momento em que se dá a procura hospitalar.

Para os autores, este dado é «particularmente preocupante», pois estes internamentos implicam situações clínicas que não foram acompanhadas de forma continuada e preventiva, «provocando o agravamento da doença e a necessidade objetiva do internamento».

«Embora se verifique, globalmente, uma diminuição dos internamentos nos hospitais, parece haver uma clara tendência para o aumento dos internamentos potencialmente evitáveis mediante a intervenção dos cuidados de saúde primários, principalmente daqueles em que o internamento se justifica no momento da manifestação de procura», resume o estudo.

Das doenças abordadas, os dados da diabetes, da hipertensão e das patologias cerebrovasculares mostram que diminuiu, entre 2004 e 2012, o número de internamentos de doentes que podiam ter tido controlo nos centros de saúde.

Pelo contrário, no caso da doença pulmonar obstrutiva crónica e da insuficiência cardíaca, estes internamentos potencialmente evitáveis têm aumentado.

Relativamente à asma, a situação manteve-se praticamente inalterada, «o que poderá indicar uma evolução pouco positiva no controlo do doente asmático», nomeadamente no que diz respeito à prevenção de episódios agudos.

Numa análise às regiões do país, a de Lisboa e Vale do Tejo foi a que demonstrou piores resultados no conjunto das seis doenças estudadas, enquanto a zona Norte foi a que apresentou os melhores, exceto no caso da doença pulmonar obstrutiva crónica.