Os portugueses querem uma Igreja inclusiva que não discrimine os filhos dos casais que vivem fora «das normas eclesiásticas», como homossexuais, unidos de facto ou divorciados, revelam as respostas ao questionário sobre a família promovido pelo Vaticano.

«Os casos de famílias que não estão segundo as normas canónicas são apresentados como desafios pastorais para que a Igreja seja sempre mais, como o seu fundador Jesus Cristo, acolhedora e inclusiva, fazendo caminho para a meta do ideal cristão, com exigência que seja misericordiosa«, afirma a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) num documento enviado à agência Lusa, nesta quinta-feira.

No texto, que sintetiza as conclusões do inquérito aos portugueses feito pela Igreja Católica, a CEP revela que foi «particularmente acentuado que, na vida pastoral da Igreja, não deve haver qualquer tipo de discriminação em relação aos filhos de casais que não estão segundo as normas eclesiásticas, antes devem receber uma especial atenção e acolhimento, que envolva também os pais».

Segundo a CEP, o questionário foi respondido por «uma grande variedade de pessoas», inclusive de fora da Igreja, tendo sido recebidas «largas dezenas» de respostas de paróquias, movimentos de leigos e apostólicos e individuais.

«Algumas dezenas de milhares de pessoas participaram ativamente nas respostas ao questionário, participando em grupos que responderam em conjunto, e respondendo pessoalmente, em papel ou por correio eletrónico. Basta dizer que só o Patriarcado de Lisboa recebeu mais de 13 mil respostas», adianta a CEP.

Segundo a CEP, o facto de algumas dioceses e movimentos terem disponibilizado o questionário online «facilitou o desejo de colaborar».

Para a CEP, «a grande adesão a responder a um questionário algo complexo e extenso, com quatro dezenas de perguntas, mostra que o tema da família é muito importante para as pessoas tendo em conta as vicissitudes porque passam hoje as famílias».

Violência doméstica, divórcio e separação dos pais, dificuldades económicas, famílias monoparentais e casais do mesmo sexo, regulação dos nascimentos, casados que se voltaram a casar, processos de nulidade de matrimónios, dificuldade em educar os filhos e em transmitir valores são algumas das vicissitudes apontadas pela Igreja.

De acordo com a CEP, as respostas ao questionário revelam ainda que as pessoas gostaram que tenha sido feita uma consulta às bases da Igreja e não apenas à sua hierarquia.

«Muito apreciado foi também o encarar com realismo as famílias de hoje, tais quais são, a fim de que se possam encontrar as melhores ajudas e pedagogias pastorais», acrescenta a CEP.

A síntese das respostas ao questionário foram enviadas pelas dioceses para o Secretariado Geral do Episcopado (SGE), onde um grupo de três pessoas resumiu a 25 centenas de páginas.

O resumo foi enviado para Roma no final do mês de janeiro.

O Vaticano enviou em novembro passado às conferências episcopais de todo o mundo uma consulta sobre as novas realidades da vida familiar, abordando questões como o divórcio ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Os resultados deste inquérito servirão de base à preparação da assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos, que vai decorrer em Roma, de 5 a 19 de outubro de 2014, sob o tema «Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização».