Quarenta anos depois, António Passos Coelho, pai do primeiro-ministro acredita que a Revolução de Abril trouxe «vantagens fantásticas» ao país, com destaque para a liberdade de expressão, o Serviço Nacional de Saúde ou a justiça, mas lamenta que não se tenha conseguido aproveitar o que estava bem.

Em entrevista à Lusa, a propósito das comemorações do 25 de Abril, António Passos Coelho afirmou que não se revê neste Portugal, onde a falta de educação é encarada com normalidade e se insultam ministros e presidentes. «Vejo tudo isto com muita preocupação. Não há um meio-termo, onde se critique sem insultar», lamentou.

O pai do primeiro-ministro, médico pneumologista de profissão, considerou ainda que o Portugal de hoje «é uma coisa séria» e culpa os políticos, dos vários Governos PS e PSD, pelo estado a que o país chegou.

«Isto está mau, está a ser complicado a cortarem-nos nos vencimentos, está mal, e o Estado não tem dinheiro, de maneira que isto é um problema», sustentou.

Nascido em Vale de Nogueiras há 87 anos, em Vila Real, António Passos Coelho deixou o Caramulo em 1970 para embarcar naquela que viria a classificar como a «loucura africana», ao aceitar o desafio lançado pelo então ministro do Ultramar de organizar um serviço de pneumologia moderno em Angola.

A Revolução de Abril apanhou o médico em Luanda, onde residia com a mulher e os quatro filhos, e ocupava o cargo de diretor de hospital e chefe do serviço de combate à tuberculose.

Apesar do clima de instabilidade que se foi alastrando, António Passos Coelho permaneceu naquele país até às vésperas da independência, a 11 de novembro de 1975, apanhando o último avião da carreira área para Lisboa.

«Eu acho que a independência deveria ter sido dada com o auxílio da ONU ou da organização das Nações Africanas, deveria ter sido assim, de maneira a ter lá uma força qualquer que evitasse a guerra entre eles», salientou, considerando que «foi tudo feito à pressa».

Talvez por trazer na bagagem a memória de uma Angola «florida e limpa», o Portugal que encontrou, «sujo e imundo», deixou-o desolado. Admirou-se com o desleixo das pessoas, mal vestidas e de barba por fazer, e a alegria que não parecia natural.

Declinou convites que surgiram para deixar de novo o país e fixou-se em Vila Real, onde foi também diretor de hospital, abriu consultório e foi presidente da Assembleia Municipal, eleito pelo PSD.