A coordenadora do gabinete de apoio ao sobreendividado da Deco, Natália Nunes, disse hoje que «mais de 17 mil famílias» procuraram ajuda da associação de Defesa do Consumidor, só no primeiro semestre deste ano.

«Entre janeiro e junho de 2013, mais de 17 mil famílias nos contactaram a pedir ajuda», disse Natália Nunes no decorrer de uma intervenção, no âmbito da comemoração dos 25 anos da Associação dos Consumidores da Região Açores (ACRA).

Segundo a responsável pelo gabinete de apoio ao sobreendividado da Deco, «70% das situações de sobreendividamento, que surgem» na associação, devem-se ao desemprego e à deterioração das condições laborais.

«As causas que estão a levar as nossas famílias a entrar em dificuldade têm a ver com as situações de desemprego, de cortes salariais e, quando falo aqui de cortes salarias, falo também do corte nas pensões», sublinha a responsável.

Natália Nunes afirma que, muitas vezes, «a situação é espoletada pela falta de literacia financeira das famílias portuguesas».

«Vemos que muitas das famílias têm ensino secundário, ensino superior ou até doutoramento e não é isso que significa que tenham conhecimentos em termos financeiros», disse.

O problema das famílias vai mais longe do que o incumprimento de créditos bancários, porque há quem procure a Deco para pedir auxílio em planos de pagamento de despesas correntes.

«Cada vez mais, nós na Deco somos chamados a negociar planos de pagamento das dívidas da água, da luz, do gás, dos telefones e das televisões por cabo, porque tudo isso são também formas de endividamento das famílias», admitiu.

No entanto, Natália Nunes sublinha que a responsabilidade do sobreendividamento não se cinge às pessoas ou famílias, mas também às instituições que acabam por conceder mais que um crédito à mesma pessoa, e avançou com um testemunho real de uma família auxiliada pela Deco.

«Não estou aqui a dizer mal de nenhuma instituição mas, neste caso, vemos [diferentes instituições] a concederem vários créditos [à mesma pessoa] - e nós sabemos que as instituições de crédito têm acesso à central de responsabilidades de crédito do Banco de Portugal, onde têm toda esta informação - e, por isso, a responsabilidade não é só do consumidor», disse, exemplificando um caso prático de uma família auxiliada pela Deco.

Em 2012 pediram ajuda à Deco 23 mil famílias, mas asó foram abertos 5400 processos, porque nem todas cumpriam os requisitos necessários e, desde 2000, a Deco só dá apoio «ao sobreendividamento passivo».

«O sobreendividado passivo é aquele que agiu de boa-fé, tinha conhecimento da sua situação mas, por razões completamente alheias à sua vontade, entrou em situação de dificuldade, enquanto o sobreendividamente ativo é aquele que, de forma irresponsável, de forma negligente, sabendo da sua situação económica, mesmo assim resolveu contratar» o crédito, sublinhou a coordenadora do gabinete de apoio ao sobreendividado da associação de Defesa do Consumidor.