Uma garraiada protagonizada por anões vestidos de estrunfes é a novidade do programa deste ano da secular festa da «Vaca das Cordas», em Ponte de Lima, marcada para esta sexta-feira e sábado, adiantou esta quinta-feira à Lusa fonte da organização.

«Este ano, a novidade é a garraiada com acrobatas e forcados anões para se alargar o programa ao fim de semana e atrair mais gente a Ponte de Lima. Quanto à Vaca das Cordas, não há novidade porque na tradição não se mexe», adiantou Aníbal Varela, presidente da associação «Amigos da Vaca das Cordas».

Pelo segundo ano consecutivo a tradição decorre na sexta-feira devido ao fim do feriado do Corpo de Deus. Para estender a animação ao fim de semana, pela primeira vez vai realizar-se uma garraiada com anões da Colômbia, México e Espanha.

O espetáculo gerou polémica nas redes sociais pelo alegado aproveitamento da condição física dos intervenientes, em críticas desvalorizadas pelos visados.

A Câmara, que autorizou a ocupação do espaço para a instalação de uma praça amovível, com capacidade para 2.200 espetadores, não alimenta o debate e sublinha apenas a importância da tradição secular que todos os anos atrai milhares de forasteiros aquela vila.

A tradição da «Vaca das Cordas» obriga a que o animal, que é um touro sempre com mais de 450 quilos, saia para a rua pelas 18:00, conduzido por cerca de dezena e meia de pessoas e preso por duas cordas. É levado até à Igreja Matriz e preso à janela de ferro da Torre dos Sinos, sendo-lhe dado um banho de vinho tinto da região, «lombo abaixo, para retemperar forças», conforme reza o costume local.

Dá depois três voltas à igreja, sempre com percalços e muitos trambolhões à mistura dos populares que ousam enfrentá-lo, após o que é levado para o extenso areal da vila, dando lugar a peripécias, com corridas, sustos, nódoas negras e trambolhões e até pegas de caras amadoras.

Até 2013 ocorria na véspera do dia do Corpo de Deus, celebrado numa quinta-feira, 60 dias depois da Páscoa, data que este ano se assinala no domingo.

Nas ruas do Centro Histórico irá cumprir-se, madrugada dentro, a confeção dos tapetes floridos, por onde irá passar a procissão do Corpo de Deus.

A mais antiga referência que se conhece da «Vaca das Cordas» remonta a 1646, quando um código de posturas obrigava os moleiros do concelho (ministros de função) a conduzir, presa por cordas, uma vaca brava, sob condenação de 200 reis pagos na cadeia.

Mais tarde, segundo o Código de Posturas de 1720, a pena agravava-se para 480 réis. Diz a lenda que a Igreja Matriz, da primitiva vila, era um tempo pagão dedicado a uma deusa, simbolizada por uma vaca.

Posteriormente, este templo foi transformado em igreja pelos cristãos que retiraram do seu nicho a imagem da «deusa vaca» e com ela deram três voltas à igreja, após o que a arrastaram pelas ruas da vila, para alegria de todos os habitantes.

Daí virá o costume da «Vaca das Cordas», um ritual que foi interrompido em 1881 pela vereação, tendo reaparecido por volta de 1922, para não mais deixar de se realizar.