As crianças educadas com dois pais ou duas mães desenvolvem-se tão bem como as outras, «apesar do preconceito e da discriminação». A conclusão é dos investigadores Jorge Gato e Anne Marie Fontaine, da Universidade do Porto, que após fazerem uma revisão de estudos científicos, assim o atestam.

A coadoção de crianças por casais homossexuais foi, esta sexta-feira, chumbada no Parlamento. O diploma previa a possibilidade de um dos membros do casal adotar o filho, biológico ou adotado, da pessoa com quem vive em união de facto ou com quem se casou.

Em debate está o conceito do superior interesse da criança, um conceito que se define ao analisar cada caso concreto.

Na base do discurso de que as crianças precisam de um pai e de uma mãe está a ideia de que «a maternidade e a paternidade implicam capacidades mutuamente exclusivas e estereotipadas em termos de género e que estas devem ser transmitidas à geração seguinte», escrevem, num artigo publicado na revista ex aequo, em 2011, Jorge Gato e Anne Marie Fontaine. Estaria, «de um lado, uma mãe ao serviço da criança, prestadora de cuidados e guardiã de todos os afetos e, de outro, um pai, razoavelmente distanciado e introdutor da Lei social».

Ora, os papéis já não são tão rígidos. No entender daqueles investigadores, «considerar a família heterossexual, com uma divisão tradicional de papéis, como o modelo desejável de parentalidade corresponde mais a um projeto ideológico do que a um facto cientificamente provado». Ao analisarem as «investigações que comparam homo e heteroparentalidade», Jorge Gato e Anne Marie Fontaine concluíram que não há grande diferença.

Duas mulheres até exercem a parentalidade «de uma forma mais satisfatória, em algumas dimensões, do que um homem e uma mulher ou, pelo menos, do que um homem e uma mulher com uma divisão tradicional do trabalho familiar», defendem. As crianças crescem como as outras, só que «parecem desenvolver um reportório menos estereotipado de papéis masculino e feminino», referem.