"Senti-me completamente, completamente, isolada, abandonada". As palavras são de Ana Paula Neves, vice-presidente de Castanheira de Pera, que contou à TVI como se viveram os primeiros momentos depois do início das chamas que fizeram 64 mortos e mais de 200 feridos.

Ana Paula Neves afirmou no passado sábado sentiu que "estava a viver no terceiro mundo" e que viveu "experiências de uma angústia, de uma solidão, que ninguém consegue explicar".

Nós estávamos sem comunicação, imagine. Pedi a todos [secretários de estado, ministros, Presidente da República e primeiro-ministro] para pararem um bocadinho e meterem-se na nossa posição. Passavam só ambulâncias. Pessoas feridas. Tínhamos o Centro de Saúde fechado. Estávamos isolados. Não tínhamos comunicação".

E foi esse Centro de Saúde que foi "tomado de assalto" para conseguir socorrer os bombeiros que tiveram um acidente quando se deslocavam para combater o fogo.

Entretanto há um acidente – foi hoje o funeral do bombeiro - e então eles dirigiram-se, naturalmente, com as ambulâncias para o Centro de Saúde. O Centro de Saúde fechado. Fomos a correr a casa de uma funcionária pedir para abrir o Centro de Saúde. Um dos bombeiros pedia para lhe darem uma injeção para ele morrer, tais eram as dores. Então, mobiliza-mo-nos e tivemos enfermeiras, uma médica, um médico que estava cá… e foi assim que tomámos quase de assalto o Centro de Saúde. Tentamos socorrer, mas é evidente: os armários estavam fechados, não havia medicação para as dores, não havia as mínimas condições. Estas coisas não podem acontecer".

A vice-presidente transmitiu as suas angústias a Marcelo Rebelo de Sousa, pedindo-lhe que olhasse para o interior do país e deixou um alerta.

Senhor presidente, nós não tínhamos comunicações, mas o país estava a ter conhecimento pela televisão e a nível de saúde sabiam o que nos estávamos a passar e o que nos tínhamos. Isto não se admite, não se admite que Castanheira de Pera tenha um médico e meio, nem isso".

O incêndio, que deflagrou no sábado à tarde em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, provocou pelo menos 64 mortos e mais de 200 feridos, segundo o último balanço, divulgado esta quarta-feira. É o mais mortífero da história do país.

O fogo começou em Escalos Fundeiros, e alastrou depois a Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera, no distrito de Leiria.

Desde então, as chamas chegaram aos distritos de Castelo Branco, através do concelho da Sertã, e de Coimbra, pela Pampilhosa da Serra.

O incêndio consumiu cerca de 30 mil hectares de floresta, de acordo com dados do Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais.