São várias as imagens que remetem para o cenário de destruição, devastação, horror, aflição e morte na aldeia de Várzeas, no concelho de Castanheira de Pera, uma das zonas mais tragicamente afetadas pelo incêndio que começou no dia 17 de junho em Pedrógão Grande.

De Várzeas saíram 11 pessoas para morrer na EN 236-1, também chamada "Estrada da Morte": uma família com convidados em casa, num total de nove pessoas, morreu quando tentava fugir ao fogo, deixando a mesa posta para o jantar e outro casal que também resolveu sair da casa em que morava, em pânico, com as chamas que envolviam a localidade.

À conversa com o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, e com o médico dentista João Oliveira, o jornalista da TVI José Carlos Araújo recolheu testemunhos do pânico que ali se instalou na tarde e na noite de sábado no concelho de Castanheira de Pera.

João Oliveira estava em casa e conta que, durante a tarde de sábado, foi-se apercebendo da aproximação do fogo. Apesar de ser médico dentista teve o impulso de querer ajudar e conta que a primeira preocupação foi abrir o Centro de Saúde, que ao fim de semana está fechado, mas que mesmo assim foi praticamente impossível prestar ajuda a quem precisava de assistência médica porque o centro não tinha as mínimas condições.

Lá dentro foi uma complicação porque deparamo-nos com falta de material: havia poucas guias para soro, injetáveis para as dores não havia, não havia gelo, medicamentos tiveram que se mandar buscar em vários sítios para desenrascar, mas tudo coisas básicas, analgésicos, não passava disso”, afirmou.

João Oliveira explica que, mesmo com o Centro de Saúde aberto, não foi possível prestar socorro adequado a bombeiros que tiveram um acidente quando se deslocavam para combater o fogo.

“Tínhamos os nossos bombeiros a sofrer dentro de uma ambulância e o nosso desespero era, de alguma maneira, tentar enviá-los para Coimbra ou para onde fosse. A informação que tínhamos era que o INEM estava para chegar com pessoal médico e tudo o que fosse necessário, só que o tempo ia passando, passando e não chegavam e os homens continuavam lá (…). Até chegarem os meios para os conseguir retirar foi complicado”, revelou.

O médico dentista refere que, a determinada altura, Castanheira de Pera ficou entregue a si própria.

A partir das oito e meia da noite, quando isto chegou mesmo em cima de Castanheira de Pera, não tínhamos meios praticamente nenhuns: um carro estava avariado, outros estavam para Pedrógão e os que tínhamos em Castanheira eram poucos e o que havia a fazer era muito e não tínhamos meios para fazer de maneira alguma.”

João Oliveira sublinha que é fundamental aprender os erros e alerta que os que se cometeram em Castanheira de Pera “não podem voltar a acontecer”.

“As pessoas estão revoltadas, tristes e desanimadas e acho que, em termos futuros, há que pensar em toda esta gente que aqui está, em não deixar estas terras ao abandono. Se não tivermos ajuda não sei o que vai ser desta gente”.

O médico dentista refere que não só “falhou completamente a assistência médica”, como também houve uma total falta de meios. O médico realça que houve pessoas que estiveram dias sem luz, sem comunicações e sem água potável.

Civis voluntários disponibilizaram carros, carrinhas e selecionámos produtos que seriam essenciais para as pessoas, nomeadamente água, leite, fruta, cereais, enlatados, alimentos também para animais. Encontrámos muitos animais mortos, mas também muitos vivos que provavelmente perderam os donos. Pode-se dizer que isto é quase um cenário de guerra."

"Se os pinheiros e os eucaliptos votassem era diferente"

Para o presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares, os políticos têm de assumir responsabilidades para que cenários como o de Pedrógão Grande não se repitam.

Os políticos, quando em determinadas alturas, falam na descriminação positiva, falam na descentralização, falam no Interior, metem o Interior no coração. Esta questão foi muito grave porque o Centro de Saúde está fechado ao sábado. Fecharam-se Centros de Saúde por esse país fora. Em terras como Castanheira, em que há um êxodo das populações à procura de uma melhor qualidade de vida. Fecham-se escolas, fecham-se os centros de saúde. Isto é muito grave porque este êxodo das populações tem de ser evitado, porque se perde muito deste país”.

O responsável critica a mancha de floresta sem ordenamento e alerta que “o futuro das nossas florestas nunca mais poderá ser igual”.

“A nossa floresta, alguém um dia lhe chamou o petróleo verde de Portugal e eu concordo com isso. Mas temos de nos questionar que tipo de floresta queremos para Portugal. Esta floresta assim, não. Esta mancha contínua de floresta toda ela sem planeamento, sem qualquer ordenamento (…) É preciso parar para pensar e fazer com que o amanhã nunca mais volte a ser igual a hoje”, defende.

O presidente da Liga dos Bombeiros diz ainda que é preciso assumir a mudança com decisões políticas, sem medo e sem estar a contabilizar “se tenho mais votos ou menos votos”.

 Se os pinheiros e os eucaliptos votassem era diferente, mas não votam”, ironiza.

Jaime Marta Soares aponta para outro grave problema: o da erosão. Depois do incêndio, e com a chegada do inverno e da chuva, a terra não vai absorver a água que vai cair e vai transformar-se em lama

“Agora a chuva vai arrastando por esses valeiros todos abaixo e vai inundar os nossos rios, as nossas ribeiras e também se for muita chuva vai deixar estas terras improdutivas porque vão precisar de muitos anos para recuperar”.

O responsável alerta que o que está em causa é um problema de cultura da floresta. Jaime Marta Soares defende que o modo como se trata o espaço urbano deve aplicar-se também em relação à floresta.