O meteorologista Manuel Costa Alves considera que o esclarecimento que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) enviou, na quarta-feira, ao primeiro-ministro, António Costa, não explica na totalidade o que se passou, no sábado, no incêndio que nasceu em Pedrógão Grande.

O IPMA aponta condições excecionais e um fenómeno meteorológico chamado downburst para a propagação das chamas, mas Costa Alves defende que há mais do que isto. Em entrevista à TVI24, o especialista e antigo meteorologista do IPMA diz que o que ali aconteceu foi “uma célula de convecção, muito mais vasta e larga” do que uma “tempestade de movimentos explosivos de uma massa de ar descendente”, que caracteriza o downburst.

António Costa definiu a questão meteorológica como fundamental para esclarecer o que aconteceu no incêndio mais mortal da história portuguesa. O primeiro-ministro pediu na segunda-feira ao IPMA que esclarecesse rapidamente se "houve em Pedrógão Grande circunstâncias meteorológicas e dinâmicas geofísicas invulgares que pudessem explicar a dimensão e intensidade da tragédia, em especial no número de vítimas humanas, sem paralelo nas ocorrências de incêndios florestais".

No esclarecimento enviado pelo IPMA ao chefe do Governo algumas respostas começaram a surgir, mas há ainda dúvidas que só serão esclarecidas com uma análise detalhada do que aconteceu.

Um dos aspetos mais importantes é perceber como é que o fogo se propagou de forma tão rápida ao ponto de matar e ferir dezenas de pessoas. O último balanço oficial dá conta de 64 mortos e mais de 150 feridos.

Na carta enviada a António Costa, o IPMA considera que a "dinâmica" gerada pela conjugação entre incêndio e instabilidade climatérica, no sábado, em Pedrógão Grande, gerou no terreno condições excecionais para a propagação das chamas.

O organismo levanta também a hipótese em que agora trabalha, e que constará de um relatório que deverá estar pronto na sexta-feira, de que ocorreu um downburst já durante o incêndio e que pode ter acelerado a propagação. “Downburst” (“Explosão para baixo”, na tradução livre em português) é uma massa de ar descendente, que chega até ao solo e se espalha de forma radial, causando ventos fortes. Uma vez chegada ao chão, essa descarga de ar dispara para todas as direções. É um fenómeno muitas vezes confundido com um tornado, mas não é.

Em entrevista à TVI24, Costa Alves estranha a explicação do instituto. Para o antigo meteorologista do IPMA, o que aconteceu em Pedrógão Grande foi um "efeito chaminé, uma célula de convecção, muito mais vasta e larga”.

 O que houve ali foi uma célula de convecção ascendente do vento, em contacto com o calor, e é como se fosse um círculo alongado e, no topo, gera movimentos descendentes que convergem para a zona onde se dá a ignição”.

O meteorologista aponta “uma grande diferença de temperaturas entre a base onde existe a combustão e a zona mais alta da atmosfera. Uma bolha de convecção muito grande de ar muito quente” que se terá propagado em todas as direções (o que dá razão aos bombeiros) e explica alguns relatos “de que as árvores quase voavam”.

À explicação do IPMA de que se tratou “apenas” de uma tempestade de ar de movimento descendente, Costa Alves contrapõe que, “do ponto de vista científico, e a não ser que tenha havido desenvolvimentos mais recentes, o downburst não é normalmente associado a estas células de convecção”.

A título de curiosidade, o especialista refere que o downburst tem sido responsável pela queda de alguns aviões. Antes de o fenómeno ser conhecido, pensava-se que só os movimentos ascendentes de ar é que causavam a queda de aviões.

A ter acontecido uma célula de convecção mais vasta ou “apenas” um downburst durante o incêndio, pode ter sido importante para o que aconteceu na estrada em que ficaram aprisionados vários carros e em que morreram 47 das 64 vítimas do incêndio, a EN 236-1, conhecida como “Estrada da Morte”, que não foi cortada ao trânsito).

A questão “demasiado empolada” da ignição

O IPMA emitiu um aviso meteorológico sobre o risco muito elevado de incêndio florestal para a zona de Pedrógão Grande vários dias antes do fogo. O alerta foi lançado por causa das altas temperaturas e baixos níveis de humidade previstos para a região. A trovoada também fazia parte das previsões para o elevado risco de incêndio, mas não foi referida no aviso meteorológico feito para esta e outras regiões do país. 

No sábado, dia 17 de junho, os sensores de descargas elétricas do IPMA em vários pontos do país registaram quase 300 descargas na região de Pedrógão Grande entre as 14:30 e as 16:00, que parecem ter sido decisivas no incêndio. O alerta para o fogo foi dado às 14:43. O trabalho do IPMA apoia-se na análise dos dados do radar meteorológico de Arouca (que apanha a região de Pedrógão Grande) e dos quatro sensores de descargas elétricas, localizados em Braga, Alverca, Castelo Branco e Olhão.

Chamado a responder ao primeiro-ministro, o IPMA está analisar os raios que caíram na região na tarde de sábado, mas a origem do incêndio, que foi dominado na quinta-feira, continua a suscitar dúvidas. Enquanto o presidente da Liga dos Bombeiros e o autarca de Pedrógão acreditam em “mão criminosa”, a PJ insiste em “causas naturais”.

Logo no domingo, Almeida Rodrigues, diretor da PJ, afirmou que as autoridades policiais tinham conseguido “determinar a origem do incêndio” e que tudo apontava “muito claramente para causas naturais”. Terá mesmo sido encontrada “a árvore que foi atingida por um raio” e onde o fogo terá começado.

Sem desvalorizar a importância da investigação, o meteorologista Costa Alves defende que “se está a empolar demasiado a causa da ignição”. O especialista refere que as descargas elétricas não são um fenómeno assim tão extraordinário, já que “acontecem dezenas de outras vezes” com trovoada.

O meteorologista aponta que, no dia 17 de junho, a região de Pedrógão Grande “era uma zona lateral da zona geradora de trovoada”. As três principais zonas geradoras nesse dia eram Castelo Branco, Norte do Alentejo e Alcácer do Sal.

Reiterando que as descargas elétricas “se verificam muitas vezes”, Costa Alves afirma que condições atmosféricas para uma propagação tão explosiva do fogo não são humanas com toda a certeza”. Mas o especialista alerta que apenas em 5% dos casos é que as ignições dos incêndios se devem a causas naturais.

As causas dos incêndios florestais são das mais variadas, porém a sua grande maioria (95%) é de origem humana: queimadas, queima de lixo, lançamento de foguetes, cigarros mal apagados, linhas elétricas, fogo posto.

Aquela zona “só estava a precisar de um fósforo”

Conforme explicaram à TVI os professores de Geografia Física e Estudos Ambientais, da Universidade do Minho, António Bento Gonçalves e António Vieira, basta olhar para a área florestal do país para perceber o porquê de alguns fogos ganharem proporções gigantescas e serem de tão difícil combate.

Na entrevista à TVI24, Costa Alves fez eco desta ideia da necessidade de uma reforma da floresta. O meteorologista conta que, ao passar no Itinerário Complementar 8 (IC8) há alguns meses, reparou em mato com 1,5 metros de altura e num ordenamento do pinhal, com árvores a um palmo de distância umas das outras.

Aquele material esteve todo a secar e só estava a precisar de um fósforo para se propagar de forma tão violenta. Teve-o agora”, afirma.

De acordo com um relatório da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte (DRAPN) sobre Controlo de matos e redução de combustíveis Prevenção de Incêndios Florestais, "a distância entre as copas das árvores deve ser no mínimo de 4 metros e a desramação deve ser de 50% da altura da árvore até que esta atinja os 8 metros, altura a partir da qual a desramação deve alcançar no mínimo 4 metros acima do solo."

O mesmo relatório indica que os fogos florestais consomem combustíveis vegetais naturais, como o húmus, as espécies herbáceas, arbustivas e as árvores. Além disso têm propagação livre e os fatores que neles participam não estão controlados. 

Valores médios “não explicam nada”

António Costa, perguntou na segunda-feira à noite ao IPMA se houve condições meteorológicas adversas e quais as condições geofísicas que terão condicionado a propagação do incêndio em Pedrógão Grande. O IPMA respondeu, na quarta-feira, dizendo que as previsões meteorológicas feitas para a tarde de sábado, na região, estiveram dentro da margem de erro e batem certo com os valores depois verificados de temperatura, humidade e velocidade média do vento. Para Costa Alves, trata-se de “uma explicação genérica, muito pela rama e auto justificativa”.

Percebe-se que [os técnicos do IPMA] se sentem acossados e lutam para se justificar através dos avisos que enviaram. É uma explicação teórica que não é satisfatória, não explica a totalidade do que se passou”, defende o meteorologista.

Costa Alves sublinha que compreende a dificuldade do trabalho, sabe que o esclarecimento enviado a António Costa resulta de uma análise preliminar, mas espera que os técnicos possam ir mais além no estudo detalhado que vão fazer.

O experiente meteorologista explica que “os valores médios recolhidos através da estação meteorológica de Ansião [concelho vizinho de Pedrógão Grande, que não dispõe de uma estação] não explicam nada”. “É preciso ir para valores extremos. A estação contém dados sobre valores mais elevados atingidos pelo vento, humidade relativa, temperatura, atmosfera. São parâmetros clássicos”, acrescenta. 

Costa Alves entende que, do ponto de vista profissional, se pode fazer mais.

Temos dados e ciência para ir mais longe”, refere.

Costa Alves sublinha que, para além dos elementos recolhidos pelas estações meteorológicas, a análise deve ser feita com todos os dados possíveis: pode e deve também recorrer-se a formulações teóricas e à internacionalização, através da análise de casos semelhantes que possam ter ocorrido noutros locais do mundo.

Dados "in situ" são representativos da região

A TVI24 questionou, na quarta-feira, o IPMA sobre a eventualidade de poder não haver dados suficientes disponíveis sobre o incêndio de sábado, visto que não há uma estação meteorológica em Pedrógão Grande. Uma questão que, para os responsáveis do organismo, não tem razão de ser.

Em entrevista telefónica, uma fonte do IPMA explicou que há, em Portugal, estações meteorológicas suficientes e representativas de cada área ou região, num mapa que é definido pela Organização Meteorológica Mundial e que pode ser consultado AQUI.

A mesma fonte garantiu, por isso, que os dados meteorológicos “in situ” divulgados são representativos da região.

Os dados são recolhidos como sempre têm sido recolhidos até agora, ou seja, a cada dez minutos consoante a estação, e que depois são cruzados com as redes de observação remota [satélites meteorológicos e radares]”, sublinhou.

Questionado sobre uma eventual pesquisa no terreno, o mesmo responsável do IPMA indicou que “não há mistura de campos de ação” e que a investigação no local é da competência de técnicos forenses da Polícia Judiciária.