O «voto retumbante na moderação», nas eleições constituintes de 1975, e «a luta por Portugal», no alvor do chamado «Verão quente», dominavam a perceção do país na imprensa internacional, um ano depois do 25 de Abril, nota a Lusa, numa revisitação com base no livro «Portugal na imprensa estrangeira - um ano depois».

A perplexidade perante o «golpe militar» democrático, que fugia aos padrões da América Latina e da Grécia, as heranças da ditadura, do analfabetismo à miséria, a presença de Portugal na NATO e os territórios em África, ainda sob administração portuguesa, estão expressas em notícias e reportagens da época.

Na altura, passavam pouco mais de dois meses sobre o estabelecimento do Conselho da Revolução, as nacionalizações da banca, dos seguros e dos maiores grupos empresariais, na sequência do 11 de Março. Tudo se encaminhava para os momentos decisivos do verão de 1975, como o comício do PS, na Alameda, em Lisboa, a 19 de julho, e a publicação do Documento dos Nove, a 7 de agosto, dos oficiais moderados do Conselho da Revolução, entre os quais se destacavam Melo Antunes e Vítor Alves. A queda do V Governo Provisório, a 19 de setembro, e os acontecimentos de 25 de novembro acabariam por decidir o termo do chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC).

A norte-americana Time, a 5 de maio, destacava a participação de mais de 90% do eleitorado e o «voto retumbante na moderação», nas primeiras eleições universais e livres, realizadas a 25 de abril, para a Assembleia Constituinte.

A vitória destacada do Partido Socialista, com 38% dos votos, seguido do Partido Popular Democrata, atual PSD, com 25%, garantia a vitória da «esquerda moderada», enquanto comunistas, seus aliados e radicais somavam «menos de 20%», e o CDS, 7,5%.

A Time lembrava os comícios de fecho da campanha: 60 mil pessoas reunidas pelo PS, em Lisboa, tantas como o PCP, enquanto os democratas populares não passavam de «uns 5000», no que parecia «mais um pretexto para uma reunião social do Estoril chique, do que um encontro político sério».

O repórter e historiador britânico Kenneth Maxwell descrevia «Portugal sob pressão», para a New York Review of Books de 29 de maio, num artigo que prenunciava o seu livro «A Construção da Democracia em Portugal», publicado 20 anos depois.

Maxwell analisava a natureza antiliberal do Estado Novo, a tensão entre grupos empresariais e o «velho» ditador Salazar, a aliança anglo-portuguesa, a cumplicidade entre a PIDE e a CIA e a presença de antigos responsáveis norte-americanos em Portugal, porque acreditava que «pouco se pode explicar» sobre o país, «sem uma perspetiva histórica».

«A questão do poder domina tudo», escrevia Alain Touraine no vespertino Le Monde, a 23 de junho. «Mas é na cúpula que se joga a partida», entre parceiros do Conselho da Revolução e o Movimento das Forças Armadas (MFA). «Não é a sociedade civil quem manda», dizia Touraine.

Tudo se jogava entre um quadro que previa eleições, deputados, uma Constituição, e um outro que se desenhava nas forças internas do MFA. Era «Portugal e o seu outro futuro», como, a 3 de maio, apontava o espanhol Triunfo, jornal histórico que «fez frente ao franquismo».

A perspetiva era replicada pelos britânicos The Observer e The London Economist, o International Herald Tribune e o Dagens Nyheter, de Estocolmo, em artigos reunidos pelas Publicações Dom Quixote, no volume «Portugal na imprensa estrangeira ¿ um ano depois», em julho de 1975.

O missionário inglês Adrian Hastings, que, em 1973, denunciara o massacre de Wyriamu, no norte de Moçambique, durante o comando do general Kaúlza de Arriaga, regressava às páginas do britânico The Times, a 29 de maio, para defender o novo «poder militar em Portugal» e alertar para «as críticas apressadas e mal informadas» ao MFA. «Se quereis um golpe de direita, esta é a forma de o propiciar», concluiu.