Entre as décadas de 50 e 80 do século passado, centenas de crianças açorianas terão sido adotadas por militares norte-americanos colocados na base das Lajes, mas o assunto ainda é hoje tabu na ilha Terceira.

É quase como um tabu que se encerra em si próprio. É de conhecimento geral e, no entanto, ninguém fala abertamente sobre ele”, adiantou, em declarações à Lusa, Tânia Mendes, autora de uma tese de mestrado sobre a adoção, que aborda estes casos.

Natural de uma freguesia próxima da base das Lajes, no concelho da Praia da Vitória, na ilha Terceira, Tânia Mendes cresceu a ouvir falar de um caso de uma criança da freguesia que tinha “desaparecido” na geração da sua mãe.

No entanto, só quando o decidiu estudar, no âmbito de um mestrado em Ciências Sociais, se apercebeu da dimensão do fenómeno e de como o tema foi evitado ao longo das últimas décadas.

É um assunto que nós abafámos. Não é um passado bonito que vamos divulgar. É um passado que queremos esconder de alguma maneira, porque retrata uma mentalidade”, salientou.

A educadora de infância não conseguiu apurar ao certo quantas crianças açorianas foram adotadas por norte-americanos no século passado, sobretudo porque a maior parte das adoções terá ocorrido de forma ilegal.

Os pedidos de passaporte norte-americano apontam para 97 crianças, mas dos casos relatados em 15 entrevistas neste estudo apenas dois coincidiam com os dados oficiais.

É impossível tentar fazer uma estimativa, muito menos uma previsão exata. O que os testemunhos referem sempre são termos muito abrangentes, como centenas. Há um que chega mesmo a referir milhares de crianças”, apontou.

Por outro lado, os pedidos de passaportes não correspondem com o número de adoções registadas nos assentos de nascimento.

Os registos de passaportes totalizavam 97 crianças. Apenas 44 foram legalmente adotadas e apenas com uma adoção restrita, que é aquela em que a criança tem que manter todos os direitos e deveres com a família biológica, nem que seja no mesmo espaço geográfico”, revelou.

Apesar de ter estudado apenas o período entre 1946 e 1974, a investigadora ouviu testemunhos sobre crianças que terão sido adotadas já na década de 80.

O número de adoções aumenta a partir de 1964, com maior incidência na década de 70, numa altura em que existia nos Açores “muita miséria, pobreza e exclusão social”, e há mesmo relatos de famílias inteiras adotadas por diferentes casais.

Os norte-americanos tinham conhecimento destes casos, porque contactavam com eles. O exemplo mais berrante será o do Bairro da Serra de Santiago, formado por populares que vinham de outras ilhas, na esperança de um futuro profissional na base. Estamos a falar de uma situação junto aos bairros dos americanos, mas por toda a ilha se fazia sentir esta miséria”, explicou Tânia Mendes.

A maior parte dos contactos eram feitos através de intermediários, habitualmente funcionários portugueses na base das Lajes ou empregadas domésticas, que conheciam famílias carenciadas.

Segundo a investigadora, “não há provas concretas” de que os norte-americanos tenham pago algum valor monetário pelas adoções, mas algumas testemunhas, externas a estes processos, relatam-no e dizem que, em algumas situações, as famílias não recebiam qualquer benefício, porque ficava com o intermediário.

Apesar de o processo levantar questões morais e de muitas famílias admitirem não terem conseguido superar a perda, as adoções são encaradas ainda hoje como algo positivo para aquelas crianças que, de outra forma, não teriam oportunidade de ter uma vida melhor.