Quase três em cada dez pessoas que morreram em acidentes de viação entre 2010 e 2012 tinham mais de 65 anos, «números importantes» que obrigam a uma maior sensibilização junto desta população, afirmou esta quarta-feira o ministro da Administração Interna.

Tendo por base as vítimas a 30 dias registadas no período 2010/2012, os dados apresentados por Miguel Macedo, no congresso Prevenir e Reparar - Crescer e Envelhecer na Estrada, revelam que «as pessoas com mais de 65 anos constituíram 29% do total das vítimas mortais resultantes de acidentes e 17% dos feridos graves».

Segundo os dados, 46% do total dos idosos que morreram eram condutores, 13% passageiros e 40% peões.

No caso dos feridos graves, estes valores são de 42%, 18 e 39% respetivamente, adiantou o ministro no congresso promovido pela Liberty Seguros em parceria com o Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses e a Associação Portuguesa de Avaliação do Dano Corporal (APADC).

«Estes números são importantes e significam que temos, do ponto de vista da informação e da sensibilização, de destacar uma importância grande para este setor» da população, sublinhou.

Segundo a Comissão Europeia, os condutores europeus com mais de 75 anos apresentam uma taxa de mortalidade na estrada cinco vezes superior e uma taxa de lesões graves duas vezes superior às restantes faixas etárias.

Ressalvando que «cada caso é um caso» o ministro disse que «é inquestionável que algumas capacidades, como a acuidade visual e auditiva, e as capacidades motoras, de perceção, atenção e concentração diminuem com o aumento de idade».

«É verdade também que a experiência, o saber, a atitude mais defensiva perante determinada situação ajuda e compensa este tipo de dificuldades», comentou.

Contudo, sublinhou, «dada a importância estatística deste setor da população» e dos números da sinistralidade vão ser realizadas «algumas ações» de sensibilização com entidades da sociedade civil.

Presente no congresso, o coronel Gabriel Barão Mendes, da GNR, observou que «existe um limite mínimo para conduzir, mas nunca foi estabelecido um limite máximo para deixar de conduzir».

«Eu compreendo que para quem tem acima dos 75 anos haja um constrangimento maior em termos de redução das capacidades e apelo às pessoas para que tomem consciência de que já não têm a capacidade necessária para o exercício da condução, sobretudo num ambiente rodoviário que vai sendo cada vez mais complexo», disse Barão Mendes.

Deu como exemplo os acidentes em contramão, afirmando que «uma parte substancial» é protagonizada por «pessoas que estão num ambiente rodoviário que já não conhecem».

Para Barão Mendes, «os condutores devem ser ciclicamente reciclados».

Esta posição também é defendida pelo presidente APADC, Duarte Nuno Vieira, afirmando que a educação rodoviária deve ser transmitida «ao longo de todas as fases da vida» e não apenas no início da condução.

Em declarações à Lusa, Duarte Nuno Vieira disse que é necessário «pensar nalgumas regras de condução específicas para este setor etário», que está a «avançar tremendamente em Portugal».

Para o responsável, deviam existir para os condutores com idades mais avançadas «determinados limites de velocidades» e alguns «condicionalismos mais restritivos» como existem para os jovens.

«Até hoje temos investido muito na prevenção e em medidas direcionadas para os jovens, é altura de começar a pensar como vamos perspetivar esta realidade que estará connosco num curto espaço de tempo», sustentou.

Duarte Nuno Vieira disse não concordar que se estabeleça um limite de idade para conduzir, «porque as pessoas chegam a determinada idade em circunstâncias muito diversas», mas é preciso assegurar «uma avaliação médica e psicológica» rigorosa e fidedigna destes condutores.