Dois bebés nasceram, no sábado, no hospital de Portimão, sem o apoio de qualquer pediatra. Um dos partos complicou-se e o recém-nascido teve de ser reanimado por uma equipa de anestesistas. Uma “situação imprevisível e excecional”, afirmou à TVI24 uma fonte oficial do Centro Hospitalar Universitário do Algarve. A mesma fonte sublinhou que os anestesistas são profissionais qualificados para estes procedimentos.

A criança foi devidamente assistida por uma equipa de anestesistas altamente qualificada e assessorada pela Diretora do Departamento da Criança, Adolescente e Família” do hospital, assegurou. “A mãe e o bebé encontram-se bem”, garantiu.

A situação motivou críticas do deputado do PSD Cristóvão Norte, que a denunciou e tornou pública no Facebook. O deputado eleito pelo círculo do Algarve considera “grave e irresponsável” que o Centro Hospitalar Universitário do Algarve não assegure pediatras na unidade de Portimão, “de modo a garantir a segurança no funcionamento dos serviços, designadamente no bloco de partos, berçário, neonatologia e internamento de pediatria, já que os mesmos acolhem um significativo número de recém-nascidos e de crianças, mas é mais grave ainda permitir que a maternidade funcione assim.”

Contactada telefonicamente pela TVI24, a fonte do Centro Hospitalar Universitário do Algarve lembrou que “a carência de profissionais ao nível da especialidade é reconhecida”.

Apesar da carência de pediatras, a mesma fonte explicou que “o Conselho de Administração e a equipa do Departamento da Criança, Adolescente e Família têm trabalhado com empenho para garantir todas as escalas o que, graças à disponibilidade de toda a equipa de Pediatria, tem acontecido”.

Nos últimos seis meses, em resultado do esforço desenvolvido, tem havido uma cobertura de 100% nas escalas de Pediatria. O ocorrido no dia 17 tratou-se de uma situação excecional e imprevisível”, garantiu.

Relativamente ao que aconteceu no sábado, a fonte sublinhou que, numa situação normal seria a equipa de pediatria a lidar com as possíveis complicações com o bebé após o parto, mas não raro os anestesistas fazem as reanimações.

A mesma fonte explicou que, “num contexto de excepção, como o que aconteceu no dia 17, em que por uma situação imprevisível não houve pediatra, as grávidas em trabalho de parto são normalmente encaminhadas para a maternidade de Faro”.

Tal não se verificou no sábado e a fonte do centro hospitalar explicou a razão: “Em alguns casos mais emergentes, designadamente em situações de parto iminente, por questões de segurança para a mulher e para o bebé, não se equaciona a transferência das utentes para a Unidade de Faro, garantindo esta unidade os recursos necessários para a realização do parto”.

Não vamos arriscar que o bebé nasça na estrada quando há uma equipa especializada que lhe dá toda a assistência”, defendeu.

A falta de médicos na região do Algarve, sobretudo a de pediatras em Portimão, tem sido denunciada de forma repetida. Em janeiro de 2017, a urgência de Pediatria daquele hospital teve de ser assegurada por uma unidade privada durante alguns dias. Em julho, o problema repetiu-se, com a urgência de Pediatria a ter de encerrar

Ainda na publicação que fez no Facebook, o social-democrata Cristovão Norte recorda que não é a primeira denúncia que faz sobre a falta de médicos.

“Relembro ainda que, em nome do PSD, já tinha denunciado em julho passado ao Ministro da Saúde esta situação, o qual respondeu que o Algarve estava incluído nas zonas periféricas para efeito da contratação de médicos. A maternidade esteve encerrada três dias no princípio de 2017 por falta de pediatras. Os alertas têm que mudar as coisas. Não se pode fechar os olhos”, defende o deputado.

Cristóvão Norte pede ainda que o episódio de sábado seja objeto de um inquérito e deixa um recado ao Governo para que contrate os médicos necessários e, enquanto isso não acontece, impeça a realização de partos.

O Governo tem que agir tomando as medidas adequadas, designadamente prover a unidade dos médicos necessários e, até que o consiga assegurar, não permitir a realização de partos sem que estejam cumpridas as regras mínimas de segurança. Essa exigência será traduzida em requerimento que apresentarei hoje [terça-feira]”, remata.

“Poupança cega e insensata ou apenas incompetência?”

O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) Algarve manifestou, esta quarta-feira, “enorme preocupação” pelos recentes acontecimentos, de sábado, na maternidade do Hospital de Portimão. A estrutura sindical acusou o Centro Hospitalar Universitário do Algarve e a Administração Regional de Saúde Algarve de “falhanço total”, ao “não acautelarem de forma responsável, como lhes deve competir, as necessidades da região e dos Algarvios”.

Em comunicado enviado às redações, o SIM lamentou que se ponha em risco a vida dos recém-nascidos, no Hospital de Portimão, “pela incapacidade e pela irresponsabilidade de quem gere o hospital.”

“A ausência de pediatras no serviço de urgência e no hospital, teria levado a um desfecho fatal, não fosse a intervenção do anestesista que perante uma situação crítica procedeu à reanimação da criança, embora a sua obrigação fosse para com a mãe (anestesiada), sendo que a função de reanimar o recém-nascido, pela sua especificidade, compete ao pediatra”, refere o comunicado.

 O sindicato sublinha a “inépcia gritante” do Centro Hospitalar Universitário do Algarve, que recentemente apenas abriu concurso para um pediatra, quando necessita de 14.

“Serão as cativações que estão na origem desta poupança cega e insensata, ou apenas a incompetência?”, questiona o SIM, sublinhando que ambas são “lamentáveis e indesejáveis” na área da saúde.