Os trabalhadores sexuais masculinos de Lisboa são maioritariamente brasileiros, jovens e trabalham em apartamentos e na rua, sendo os seus clientes na maioria homens, casados e da classe média-alta, revela um estudo divulgado esta sexta-feira.

O retrato dos trabalhadores sexuais masculinos é traçado num projeto de intervenção que está a ser realizado desde 2011 por uma equipa técnica da Liga Portuguesa Contra a Sida (LPCS) junto de 149 trabalhadores e cujos resultados foram divulgados na conferência promovida pela Liga «Encontros (In)Seguros».

Segundo o projeto «Encontros (In)Seguros», estes trabalhadores têm uma média de 29 anos, são solteiros, desempregados, homossexuais, brasileiros, a maioria legais, com o ensino secundário e uma localização incerta.

A presidente da LPCS adiantou à agência Lusa que 37% dos trabalhadores estão em Portugal há mais de cinco anos e 32% há menos de cinco.

O trabalho sexual é a principal fonte de rendimentos destes trabalhadores, que se relacionam «emocionalmente e sexualmente entre eles», adiantou Maria Eugénia Saraiva.

Segundo Eugénia Saraiva, o projeto visou «uma intervenção integrada junto dos homens que têm sexo com homens em contexto de trabalho sexual na cidade de Lisboa».

Trata-se de uma população «escondida», que leva uma vida à margem da sociedade, o que dificulta o acesso aos programas de prevenção dirigidos à população geral.

Segundo o investigador do projeto, Henrique Pereira, o estudo permitiu, pela primeira vez, caracterizar esta população em Lisboa.

Os resultados do projeto indicam que a criminalização do trabalho sexual pode constituir o fator com maior impacto na vulnerabilidade destes trabalhadores.

«Fatores como o estigma e a discriminação afastam os trabalhadores sexuais dos serviços de saúde, e a ocorrência de violações e outras formas de violência não são denunciadas por temerem o contacto com as forças de segurança», explicou o investigador.

O projeto, cofinanciado pelo Programa ADIS/SIDA, constatou que os trabalhadores sexuais apresentam-se «maioritariamente assertivos na utilização do preservativo com clientes, descurando a sua utilização nas relações emocionais com os companheiros».

«Trata-se de uma necessidade de distinção entre a relação sexual profissional e o envolvimento sexual numa relação afetiva», sublinhou Henrique Pereira.

Ao longo dos três anos, a equipa realizou 398 visitas a apartamentos e distribuiu cerca de 11.000 preservativos, 5.500 gel lubrificante, 6.500 folhetos de prevenção e 400 cartazes.

Fez 39 encaminhamentos para valências da LPCS e 80 para parceiros, na sua maioria para realização do teste ao VIH.

«No total de trabalhadores sexuais masculinos reativos, em termos de VIH, nós temos 12, e de número de trabalhadores sexuais masculinos para o VIH após intervenção do projeto temos sete», disse Eugénia Saraiva.

A equipa, constituída por um mediador, uma assistente social e uma psicóloga, conseguiu chegar aos trabalhadores sexuais e aos clientes.

«As dúvidas destes utentes passavam pelas vias de transmissão do vírus VIH, os locais da realização do teste, qual o período de janela para poderem fazer o teste, as diferenças entre o VIH e a sida e a profilaxia pós-exposição», explicou Eugénia Saraiva.

O estudo concluiu que «os comportamentos de prevenção com os clientes versus comportamentos de risco com os namorados têm de ser uma prioridade e têm de ser apoiadas as instituições que têm trabalho nesta área», sublinhou.

Para Eugénia Saraiva, é «fundamental» a construção de programas específicos de prevenção e promoção de saúde para esta população.

A prevalência de infeção por VIH/Sida é de 5% em trabalhadores sexuais e em homens que têm sexo com homens.