Quando a emoção da maternidade se cruza com o choque do despedimento, o chão desaba para uma mulher. Do choque à luta vai um passo. Porque tem de ser. Margarida Velez e Vanda Barata Reis têm 39 anos, são amigas, e ambas ficaram sem trabalho quando gozavam a licença de maternidade. Flávia Gomes viveu o mesmo nas duas gravidezes que teve, com a ironia de ser educadora de infância.

A primeira entrevista estava combinada com Margarida. Vanda também estava por lá e, em conversa, um salto ao passado, a realidade como ela foi e ainda é para muitas mulheres portuguesas: era verdade, também ela passou pelo mesmo há cerca de oito anos. O caso de Margarida é mais recente. Foi há cerca de três anos. Era diretora comercial numa empresa de telecomunicações, estava ainda de licença da sua primeira filha, quando recebeu uma surpresa, em casa, que não era para a felicitar.

“Recebi a carta a Maria Francisca tinha três meses. Não estava nada à espera, foi muito traumatizante - foi efetivamente traumatizante. Eu estava numa fase complicada, porque tinha acabado de ser mãe, conseguir gerir tudo é complicado. Receber uma carta a dizer que ia ficar sem emprego numa situação em que eu achava que estava super estável foi muito crítico”. De tal maneira que o corpo se ressentiu:

Inclusivamente uma das coisas que aconteceu foi secar-me de imediato o leite, aos três meses, derivado claramente do choque. Foi realmente um choque. A minha relação era muito boa com toda a empresa, não sei se o choque foi mais profissional, se foi mais pessoal… Está tudo misturado”

Licenciada em Psicologia, Margarida sempre trabalhou em vendas, e foi para aquela empresa de telecomunicações como chefe de equipa no segmento residencial. Passaram dois anos. “Tudo corria bem e era, efetivamente, considerada uma boa profissional”.

Fiquei triste com a situação em si, porque sabia que era uma boa profissional e toda a gente à minha volta me dava indicadores de que era uma boa profissional, das chefias e da direção e não percebi porque é que aconteceu assim…”

Tinha consciência que o poderiam fazer, porque estava no final do contrato, mas nada o fazia prever. Acabou por levar o caso a tribunal e chegou a acordo com a entidade patronal. Foi substituída por uma pessoa com mais experiência. Compreende a decisão “estratégica” e de gestão da empresa, mas há uma dúvida que fica no ar:

O que não foi bom foi a forma como foi comunicado ao trabalhador e a impossibilidade de adaptar a Margarida a outro cargo, numa empresa com uma dimensão brutal”.

Depois do choque, ainda ficou “uns meses a marinar” até ter a ideia de criar a “Deixa o Amor Passar”, uma engomadoria tradicional. Sempre gostou de passar a ferro e queria “receber o mau e entregar perfeito”. Entregar em casa, privilegiando o contacto direto com o cliente, como antes.

Com quase um ano de negócio, tem 197 clientes recorrentes, uma equipa de quatro pessoas, “com pequenas deficiências”. “Tem sido muito gratificante porque são pessoas muito válidas e espero ficar com elas por muito e muito tempo”.

"Então pensei: não vou ficar a chorar"

Vanda Barata Reis e Margarida Velez

Foi há mais tempo que a amiga Vanda perdeu o trabalho nas mesmas circunstâncias: de licença, com um filho de três meses nos braços. Era outro setor, o ramo imobiliário, mas a mesma forma de dar a notícia: uma carta no correio, sem justificações.

Tinha até sido convidada para esse trabalho, onde estava há um ano e pouco quando engravidou. “Ninguém me contactou, recebi a carta pelo correio. Não sabia se o projeto iria continuar, estava a ser iniciado, mas as coisas até estavam a correr bem”. O projeto continuou. Ela podia ter paralisado, mas não.

É sempre uma surpresa, ficamos sempre um bocadinho em choque, estamos com um bebé, é uma fase complicada, a maternidade e o pós-parto. A reação é um misto de emoções. Mas normalmente sou prática, para um problema tenho três ou quatro soluções. Então pensei: não vou ficar a chorar, tinha de fazer alguma coisa e, nessa altura, coloquei os contactos a funcionar para conseguir trabalho na mesma área. E consegui”.

Jornalista de formação, ficou sempre aquele bichinho, mas não foi opção voltar à área. Era mais fácil ter um trabalho como comercial e ganhava mais dinheiro. Tinha um filho pequeno para sustentar. Otimista, conseguiu tirar proveito do lado positivo daquele tipo de desemprego: “Fiquei mais tempo com o meu filho em casa, aproveitei a maternidade de forma mais tranquila. Tranquila entre aspas, mas como as oportunidades apareceram rápido, dei a volta facilmente”.

A ironia de ser educadora de infância

Flávia Gomes

No caso de Flávia, os últimos anos não têm sido fáceis. Dois filhos pequenos com idades próximas, como queria, mas nas duas gravidezes tiraram-lhe o chão. Com a ironia de ser… educadora de infância.

Engravidou em 2012, quando estava a trabalhar numa IPSS, num contrato de substituição de uma colega, que cessou automaticamente com o seu regresso. Foi para casa grávida e, depois, interrompeu o subsídio para iniciar a licença de maternidade.

A seguir, conseguiu um contrato emprego-inserção noutra IPSS. “O meu filho tinha apenas seis meses, o primeiro, e não foi dada hipótese de gozar direito de amamentação. Esse direito foi-me retirado, que era de lei”.

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Mesmo assim ficou, ficou durante três anos. O (novo) problema foi quando voltou a engravidar: sentiu-se, outra vez, discriminada. “Quando dei a conhecer à direção a minha gravidez, em agosto, o meu contrato terminaria em fevereiro. Como em outubro vim para casa de gravidez de risco, recebi a carta em janeiro a dizer que o contrato não seria renovado”.

Não alegaram motivo, disseram só que ia haver redução de inscrições. Mas não houve uma palavra, não fui chamada a dizer que iria ser dispensada, ninguém teve a sensibilidade de me chamar e dizer… A minha vontade sempre foi ter mais, precisamente pela minha profissão. Por opção tive os dois muito juntos, mas com uma vida ativa de trabalho não é bem visto, nem é fácil ter contrato sem termo, para esperar para engravidar”.

Sente que o país “não recebe bem quem não cria condições” para uma mulher trabalhadora engravidar. Sente que, por ter dois filhos pequenos, é “prejudicada” quando vai a uma entrevista.

Em 2016 - últimos dados conhecidos, a Comissão para a Igualdade no Trabalho eno Emprego (CITE) não concordou com 59% dos despedimentos de mulheres grávidas ou recém-mães, entre 91 pareceres. Mas recebeu mais de 1.200 intenções de não renovar contrato a trabalhadoras nestas circunstâncias.

Para Flávia, a luz ao fundo do túnel chegou um ano depois. Começou ontem, véspera deste Dia da Mulher, a trabalhar num infantário. Vai substituir, precisamente, uma grávida de risco.

Vanda também deu a volta. Margarida até criou o seu próprio negócio. À porta, está o berço.

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