São imagens exclusivas filmadas nos últimos dias nos corredores de cinco hospitais da Grande Lisboa - Amadora-Sintra, Garcia de Orta, São José, São Francisco Xavier e Santa Maria - que mostram macas alinhadas nos corredores e doentes espalhados por toda a urgência. Nestes hospitais, os tempos de espera em alguns casos chegam a ultrapassar as 30 horas.

Testemunhos recolhidos por uma equipa da TVI dão conta de um cenário de «campo de batalha» em pleno hospital Amadora-Sintra «semelhante ao que é visto nos filmes» e enfermeiros e médicos admitem que «não é possível dar assistência a todos os doentes».

«Como temos mais de cem doentes internados em SO, uma área de ambulatório com mais de 150 doentes, é impossível chegar a todo o lado, não conseguimos dar assistência a todo o lado. Perde-se a noção dos doentes que temos, dos que são críticos, por mais seletivos que sejamos, é impossível, porque nem espaço físico temos para isso», confessa um profissional de saúde.


«Chegam-nos a passar em oito horas de turno centenas de doentes», revela outra profissional, acrescentando: «As macas estão lotadas, chegamos a ter de pôr macas dos bombeiros que estão à espera, porque já não há macas no serviço de urgência».

«Nós temos os não urgentes, os pouco urgentes, que são os verdes e os azuis que chegam a esperar cerca de trinta horas num balcão. Mas tempos, por exemplo, doentes urgentes e muito urgentes a esperarem duas, três, quatro horas, quando têm que esperar minutos.»


Os números a que a TVI teve acesso são reveladores. O início da semana começa com 109 internados no dia 18 para 15 enfermeiros de serviço. Na manhã de 19, sobe para 111 com 16 enfermeiros durante a manhã e a tarde, 14 durante a noite, ou seja, os mínimos exigidos em tempo de crise.

Questionado sobre se o aumento da urgência física do Amadora Sintra resolve o problema, a mesma funcionária confessa que não.

«Ele esqueceu-se foi de pôr mais recursos humanos, porque nós somos os mesmos. A população é a mesma e por mais que ele aumente, ou até acrescente um piso, naquela urgência vai continuar tudo igual. Eu vou-lhe confessar uma coisa: o senhor ministro já esteve por duas vezes na nossa urgência e eu acredito que a realidade que ele viu não é a realidade que nós vemos, porquê? Porque cada vez que o ministro lá vai, que é uma ida anunciada, o que acontece é tentar esvaziar o máximo possível aquela urgência, para que quando o senhor ministro chegue, ele não se aperceba daquilo que ali se passa».


No Hospital Garcia de Orta, em Almada, o panorama não é muito diferente. Depois dos dois casos de morte nas urgências em apenas uma semana, mantém-se o caos com relatos de muitas horas de espera, doentes internados há quatro dias nas urgências à espera de vaga no serviço.

«Estou sem almoço, sem nada!», reclama uma doente numa maca num corredor da urgência.

«A urgência estava um caos. Cheia, cheia, cheia. Fui internada na segunda-feira e estive seis dias no corredor, numa maca. Fui observada pela minha médica ali, no corredor. Se tinha de levar uma injeção era ali que levava», revela uma paciente.


Em muitos destes hospitais, macas que eram temporárias tornaram-se camas definitivas nos corredores dos serviços de internamento e enfermarias de medicina.

No hospital de Santa Maria, as macas estão distribuídas por corredores e enfermarias de medicina. Também no Hospital de São José, nos serviços de internamento, a situação não é muito diferente.

«Neste momento temos quatro macas em corredor, que se transformaram em camas. Era suposto termos 35 doentes, nestes momentos estamos com 44. Temos casos de pessoas com infeções respiratórias onde não têm sequer rampa de oxigénio. E se existirem duas paragens cardiorrespiratórias como é que nós fazemos a seleção para de qual é que iremos salvar efetivamente», revela Emanuel Boieiro, enfermeiro das urgências daquele hospital.

Medo é o sentimento que prevalece nestes hospitais, quer por parte dos profissionais de saúde, quer por parte de quem recorre às urgências.

«Há doentes a morrer que não morreriam se tivessem os cuidados necessários», como foi o caso do doente que morreu na sequência de um AVC, depois de, alegadamente, ter esperado seis horas para ser assistido.

Depois do caso ter sido noticiado, nada mudou nas urgências do Hospital de São José.

«[Não mudou] Nada! Isto é uma bola de neve, em que um dia está mais pequena, no outro dia fica maior e isto vai continuar assim porque a afluência é cada vez maior e não há drenagem dos doentes que já estão internados».


No hospital de São Francisco Xavier a história repete-se. As imagens recolhidas no dia em que aconteceu mais uma morte - a oitava no espaço de um mês - mostram doentes amontoados nos corredores. O serviço de traumatologia estava apinhado com 17 macas para apenas um enfermeiro. Doentes em frente aos gabinetes médicos, bombeiros à espera à porta de triagem onde se amontoam doentes a chegar, pacientes internados há já quatro dias.

«Neste momento estamos na ordem dos 13 enfermeiros. Estamos a falar para uma urgência de 180 doentes e estamos a falar de 180 doentes, em que desses 180 grande parte deles, 90% deles, estão em maca, quase. Estamos a falar de turnos em que uma pessoa entra às oito da manhã e sai às onze da noite. O que acontece nesses períodos de dezasseis horas é que ao fim de oito horas, a nossa cabeça já não está no mesmo local, por assim dizer, ou seja, a sua capacidade de concentração já é totalmente diferente, o seu risco de poder fazer um erro é muito maior porque sente que está extremamente cansado», confessa um profissional de saúde à equipa de reportagem da TVI.


O Ministério Público está a investigar, pelo menos, três mortes nas urgências no último mês.