Frederico Carvalhão Gil, operacional do Serviço de Informações de Segurança (SIS), condenado na quinta-feira a sete anos e quatro meses de prisão por espionagem e corrupção passiva, falou em exclusivo com a TVI. O espião português diz que foram cometidas ilegalidades no julgamento e que está inocente. Admite ainda que tinha documentos classificados no momento em que foi detido em Roma e que tinha acabado de receber 10 mil euros, mas garante que tinha negócios de azeite.

Na entrevista concedida ao programa SOS 24 poucas horas após conhecer a pena a que foi sentenciado, Frederico Carvalhão Gil aponta ilegalidades no processo que conduziu à condenação, defende que o julgamento foi ilegal e que nem o próprio tribunal viu a documentação que o levou a ser condenado.

A juíza, o tribunal foi capaz de julgar com matéria que assume que é segredo de Estado, matéria que hoje [quinta-feira] nos disse ali que nunca viu, como é possível? E portanto, eu não sei como é que se consegue fazer um julgamento assim, violando a lei”, critica.

Aquele que é um dos mais antigos funcionários do SIS diz que as informações que serviram para o condenar não têm elementos do Estado português, nem são apenas acessíveis a elementos das secretas

As informações que eles hoje [quinta-feira], na sessão, referiram como fundamento não têm elemento nenhum que seja do serviço [SIS], que seja do Estado português, ou que seja só acessível por quem conheça o serviço. Fala, de facto, do diretor-adjunto do serviço com informações que nós podemos encontrar na imprensa, muito completas”, garante.

Frederico Carvalhão Gil conta depois como conheceu o espião russo. O ex-funcionário do SIS diz que foi, por coincidência, numa esplanada em Lisboa.

Conheci-o em Lisboa. Ele estava cá a passar férias, acidentalmente entrámos em contacto, aliás fui eu que tive a iniciativa e pronto depois saiu dali uma amizade. (…) Foi ali num café ao pé do rio Tejo. Já não sei quem é que se sentou primeiro, se fui eu ou o grupo onde ele estava. Ouvi falar russo e (…) começou ali a conversa e depois evoluiu”, afirma.

O antigo operacional do SIS assegura desconhecer que o russo era espião.

“A minha relação não era essa. Nem nunca soube que tinha tal ligação. Para mim, era de facto um homem de negócios russo, um empresário, que eu conheci acidentalmente e com o qual encontrei uma oportunidade de negócio. Aliás, se eu, em algum momento, tivesse suspeitado que as intenções dele fossem outras eu obviamente que tinha comunicado imediatamente ao meu serviço”, afiança.

O encontro em Itália e a detenção também foram alvo da entrevista. O ex-agente do SIS terá sido recrutado pelos serviços secretos russos em 2011. Em 2016 foi apanhado em flagrante num encontro com o agente russo numa esplanada na capital italiana.

Carvalhão Gil admite que tinha documentos classificados no momento em que foi detido, mas que não configuravam segredo de Estado.

Segredo de Estado, não. De facto tinha um documento classificado dentro de um livro e que estava na mochila. Enfim, um descuido meu”, esclarece.

O antigo operacional do SIS diz ainda que tinha acabado de receber 10 mil euros, mas explica que tinha negócios de azeite.

Foram-me entregues relacionados com o negócio de azeite. Eu comprometi-me, numa situação anterior, a adquirir azeite em Portugal e depois fazer-lho chegar”, assegura.

Frederico Carvalhão Gil está em prisão domiciliária desde junho de 2016, após ter sido detido em Roma em maio do mesmo ano. Esse ano e meio terá de ser deduzido à pena que lhe foi aplicada na quinta-feira. O ex-espião já anunciou que vai recorrer dos sete anos e quatro meses de prisão a que foi condenado. Para já, vai continuar em prisão domiciliária com pulseira eletrónica enquanto decorrer o recurso da sentença do tribunal.