O professor de telecomunicações responsável por uma das equipas que andou a instalar, no meio da floresta, a rede de fibra ótica que suporta, entre outras comunicações, as do SIRESP, acusa o Governo de não usar condutas subterrâneas que poderiam evitar que os cabos fossem destruídos pelo fogo. A rede de emergência do Estado terá colapsado no incêndio de Pedrógão Grande por causa disso.

Ricardo Pereira fala em interesses políticos por de trás de um negócio de milhões.

Quase um mês depois da tragédia, os estragos são visíveis, incluindo na rede de telecomunicações. Há pontas e bocados de fibra um pouco por todo lado.

Se a rede de transporte é construída pelo meio do pinhal e terrenos, onde estamos sujeitos a que caia um pinheiro, um madeireiro corte um pinheiro e ele caia para cima da linha, e até ao que infelizmente aconteceu – arderem os postes em madeira, os cabos, e ficarmos sem comunicações – automaticamente toda a vila e concelho de Pedrogão fica sem comunicações”, diz Ricardo Pereira.

Acrescentando o óbivo: “Quando o cabo arde, não há redundâncias, não há soluções. Os bombeiros ficaram sem telefone. A GNR ficou sem telefone fixo…todas as comunicações colapsaram”.

A reconstrução da fibra ótica está no terreno mas nos mesmo moldes: “o poste está encostado à arvore, se ela arder volta a arder o poste”, constata o professor especialista em telecomunicações, que também mostra à TVI, mesmo ali, do outro lado da estrada, as condutas que, assegura, evitariam que este material ardesse em caso de incêndio.

Nestas estradas, incluindo a 236 e IC8, onde tudo aconteceu, concessionadas à Asci, no âmbito de uma parceria público-privada, há condutas subterrâneas prontas para receber cabos de telecomunicações e “algumas estão às moscas", "completamente vazias”, garante Ricardo Pereira. “O cabo está a passar pela berma da estrada e, quatro metros ao lado, temos a conduta por onde poderia passar”.

Na 236-1, onde morreram 47 das vítimas dos fogos, é visível a linha de fibra, ou o que resta dela, a passar pelo meio do eucaliptal. Ali ao lado, por baixo dos pés, a linha de conduta por utilizar. “Se ao invés de passar ali [eucaliptal] passasse aqui, teríamos este problema salvaguardado”.

Onde já estão repostos os postes que arderam, diz o professor, “não há hipótese: se arder, ardem outra vez. São de madeira. Se fossem de betão também não ardiam”.

O vereador do Planeamento da Câmara Municipal de Pedrógão Grande, Bruno Gomes, também não entende porque é que as condutas, que estão lá, não estão a ser utilizadas, já que toda a zona histórica de Pedrógão foi reconstruída com base nessa alternativa e podia ser útil à rede de emergência nacional.

O SIRESP poderia utilizar esta infraestrutura. Ela existe e foi criada para as telecomunicações. Só no centro histórico foi gasto cerca de um milhão de euros nesta infraestrutura”, refere Bruno Gomes.

Ricardo Pereira diz que a ministra da Administração Interna, se não sabe da existência desta infraestrutura, deveria, pelo menos, “ter alguém ao lado que lhe desse esta informação (….) quando ela disse que ardeu a fibra devia ter sido bem informada, no sentido de dizer que há uma alternativa para que tal não volte a acontecer.”

Como tal não aconteceu, sugere que, pelo menos agora, o ministro do Planeamento e Infraestrutras, Pedro Marques, se informe das alternativas que o país tem ao seu dispor para “não cair no mesmo erro”.

Se, mesmo com a informação, “nos pusermos a jeito para acontecer o mesmo, quem não agir, se calhar, não está no sítio certo”.

As operadoras de comunicações deviam ser obrigadas, pelo Governo, nestes casos, a utilizar a infraestrutura subterrânea e não aérea. Se assim não acontecer, claramente, para Bruno Gomes, há um beneficiar destas empresas, porque as infraestruturas “custaram dinheiro ao Estado e à câmara”.

No fundo há interesses financeiros e políticos”, conclui Ricardo Pereira.