O maior inquérito em território nacional feito a homens que têm sexo com homens, realizado em 2010 e só agora divulgado, revelou que mais de um terço dos inquiridos disse já ter tido relações ocasionais sem preservativo.

No comunicado divulgado pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), que teve a seu cargo o estudo em conjunto com o Grupo Português de Ativistas sobre Tratamentos de VIH/SIDA (GAT), é indicado que mais de metade da amostra de 5.187 participantes “referiu ter tido sexo com parceiros ocasionais” no ano anterior, enquanto quatro em cada 10 estavam numa relação estável no momento da resposta.
 

Em declarações à Lusa, a investigadora Ana Fernandes Martins revelou ainda que “mais de metade da amostra disse ter sido vítima de algum tipo de violência no ano anterior, tanto intimidação como violência física e verbal”.


O mesmo comunicado do ISPUP indicou que “em relações ocasionais, e pelo menos uma vez” no ano anterior ao inquérito, 37,2% admitiram não ter usado preservativo.

A investigadora do ISPUP realçou que não se pode considerar o estudo representativo da população portuguesa, uma vez que os inquiridos participaram depois de divulgação feita através de blogues, redes sociais e eventos dirigidos a um público de homens que têm sexo com homens.

De acordo com o inquérito, cerca de 70% dos participantes identificaram-se como homossexuais.

“Não é uma total surpresa, esta baixa proporção de homens que dizem não usar preservativo. Claro que o que nós continuamos a pensar é que talvez haja uma menor aceitabilidade dos métodos de prevenção”, disse Ana Fernandes Martins, que sublinhou que talvez se esteja “no caminho errado quanto à promoção da saúde” e da necessidade do preservativo.


Ana Fernandes Martins afirmou que os dados apontam no sentido da continuação da existência de “estigma como autoestigma, quando o próprio participante refere estar ainda dentro do armário, não falar com as redes próximas acerca da orientação sexual”.

Adicionalmente, “cerca de um em cada cinco dos participantes desconhecia o seu estatuto serológico para a infeção pelo VIH, o que aponta para uma necessidade de aumentar a realização do teste na população de homens que têm sexo com homens”.

O estudo, que vai ser apresentado na sexta-feira às 17:30 no ISPUP, é o resultado do trabalho a nível nacional realizado no âmbito do projeto EMIS, desenvolvido em 38 países da região europeia da Organização Mundial de Saúde.