A verdadeira ameaça para o Ocidente colocada pela organização Daesh reside no regresso dos ocidentais que decidiram abraçar a sua causa, indo combater para a Síria e para o Iraque, considerou a investigadora Teresa de Almeida e Silva.

Estes ex-combatentes, que são cidadãos ocidentais, designadamente europeus, quando regressam podem tornar-se o que se designa por «lobo solitário», alguém que age sozinho, adiantou à agência Lusa esta professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).

«Um ‘lobo solitário’ acaba por ser mais eficaz, sabe quando há de agir, pode fazer ajustes de última hora, conhece bem o meio que o envolve, a sociedade que o acolhe, e pode acordar a qualquer momento, sem ser necessário um grupo que lhe diga o que fazer», acrescentou.


«Ele tem as armas necessárias, a doutrina, as técnicas necessárias para fazer um atentado e pode fazê-lo quando quiser. Não precisa que o grupo ao qual pertencem ou com quem se identifiquem lhe diga o que fazer», desenvolveu.

Questionada sobre os motivos que levam um jovem ocidental a integrar as fileiras do Daesh, agora conhecido como Estado Islâmico, a docente do ISCSP admitiu que “é muito difícil responder” à questão.

«Não há perfil que possa ser traçado, porque o terrorismo é algo que vai evoluindo com muita rapidez», disse Teresa de Almeida e Silva, que é autora de um capítulo – «‘Estado Islâmico’: O Legado do Wahhabismo e as Pretensões Jihadistas» – do livro «Em Caso de Guerra», que vai ser apresentado esta quinta-feira, em Lisboa.

Se «saber o que os atrai é quase impossível de responder», já mais certo é identificar os potenciais beneficiários dos atos terroristas: «a extrema-direita».

Os partidos xenófobos «utilizam estes atentados contra o Ocidente para conseguir reforçar intenções de voto», argumentou.

Por outro lado, acrescentou, a crise económica que a Europa atravessa e o nível de desemprego existente, «complica» a integração.

Teresa de Almeida e Silva, questionada sobre eventuais manipulações do Daesh por Estados, respondeu que «não há confirmações oficiais» dessas manipulações.

A ligação do Daesh, ou ISIS, ou ISIL, à religião, designadamente ao islamismo, vem da sua reivindicação de uma versão alegadamente pura do Islão e da classificação de todos os que não sejam sunitas, desde logo os xiitas, como impuros.

«A luta entre xiitas e sunitas já vem do século VII, depois da morte do profeta em 632. O wahhabismo só surgiu no século XVIII. O fundador do wahhabismo, considerou que a sua visão, sendo ele sunita, era a mais pura do Islão. Não aceitava a visão xiita. Os xiitas são considerados heréticos pelos sunitas, porque para além de adorarem Alá e venerarem Maomé, também prestam culto aos homens santos. Esta é uma das rivalidades. Uma das bandeiras do wahhabismo foi lutar pelo Islão puro, pelo retrocesso no tempo às práticas do tempo do profeta Maomé, o que implica erradicar as outras práticas», explicou.

Porém, o designado Estado Islâmico é a designação de um grupo radical que não é Estado e também tem contestado a sua reivindicação de islâmico.

«O Estados Islâmico autolegitimou-se. Ninguém lhe reconhece legitimidade. O califa autoproclamou-se e depois decidiram mudar o nome para EI», escreve a Lusa.