Um pouco por todo o país, as cantinas escolares mantêm-se em funcionamento no período das férias de verão, proporcionando para alguns alunos aquela que é a “única refeição completa” ao longo da semana. Para outros alunos, este é o local das férias, porque os pais não têm onde os deixar. 

Preocupação das câmaras municipais, juntas de freguesia e associações de pais, estas refeições integram programas de atividades lúdicas para apoiar as crianças carenciadas, assim como para apresentar alternativas para muitos pais que por motivos profissionais não podem ficar com os filhos.

“Temos consciência de que [no caso de] muitas das crianças a única refeição completa saudável que comem ao longo da semana provavelmente é aqui”, contou à agência Lusa a coordenadora do programa “Olivais em férias”, Sónia Vaz, enquanto mantinha a ordem no refeitório da Escola Básica Arco Íris, na freguesia dos Olivais, em Lisboa.


Segundo a vogal com o pelouro da Educação na Junta de Freguesia dos Olivais, Anabela Silva, era uma necessidade “ocupar as crianças durante o verão todo”, mantendo quatro escolas abertas, onde decorrem algumas das atividades de ocupação do tempo livre e onde são cedidas as refeições.

Mafalda Azevedo, de 12 anos, não é aluna na Escola Básica Arco Íris, mas frequenta o “Olivais em férias”, porque este ano não abriu nenhum programa de verão na escola onde estuda.

“A minha mãe decidiu pôr-me aqui porque fica mais a caminho do trabalho dela”, explicou Mafalda, que, apesar de gostar de passar as férias neste programa, preferia aproveitar para “sair com amigos, passar mais tempo com a família”.


No mês de julho, este programa de férias acolheu “cerca de 890 crianças nas quatro escolas, todos os dias”, informou a autarca, referindo que em agosto participam 460 crianças. Em setembro espera-se muito mais, porque os pais regressam de férias.

As crianças pagam 10 euros por semana para estas atividades, incluindo o almoço, esclareceu Anabela Silva, referindo que a junta disponibiliza cerca de 350 mil euros para financiar “as atividades, os autocarros que é necessário alugar, as refeições e os ordenados dos 160 monitores”.

À semelhança do que acontece na freguesia dos Olivais, a Câmara de Sintra abre os refeitórios escolares para todas as crianças, servindo “cerca de 250 mil refeições durante o período das férias”, afirmou à Lusa o vereador da Educação, Rui Pereira.

Na Escola Básica Monte Abraão, em Sintra, a cantina continua a servir alguns alunos durante o verão e está também preparada para receber estudantes dos 2.º e 3.º ciclos e do secundário, com a possibilidade de integrarem as atividades de férias financiadas pelo município.

“Os meus pais não têm sítio para me deixar”, contou Beatriz Pires, de sete anos, que frequenta as atividades no verão, das 08:00 às 18:00, e tem direito às refeições.


A Câmara de Sintra possibilita aos familiares dos alunos fazerem as refeições na cantina escolar, nomeadamente quando “há situações de pais desempregados”, explicou o vereador Rui Pereira.

Inicialmente, houve “alguma estranheza” por parte dos pais e dos irmãos em ir à cantina escolar, mas “a verdade é que os números estão a crescer”, afirmou.

O valor integral de uma refeição é de 1,46 euros, mas o pagamento depende do escalão social.

No mês de junho e de julho, as cantinas do município de Sintra serviram “à volta de cinco mil refeições por dia”. No mês de agosto existe uma quebra, contabilizando-se “perto de mil refeições por dia”, apontou o autarca.

De acordo com a Associação Nacional de Municípios Portugueses, a abertura das cantinas durante o período de verão “é um esforço e uma iniciativa dos municípios, que vão além das suas competências para apoiar as famílias mais carenciadas”.

Para o vice-presidente da Associação Nacional dos Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas, Filinto Lima, o paradigma está a mudar: “Se, antigamente, é verdade que as cantinas escolares abriam para matar a fome a alguns miúdos, agora existe um grupo heterogéneo de crianças”, devido às “atividades que elas não teriam se estivessem em casa”.