O presidente da agência de avaliação do ensino superior defendeu hoje que o decréscimo de alunos a concorrer a universidades e politécnicos se explica pelas desistências no secundário e pela opção de entrar no mercado de trabalho mais cedo.

«Uma primeira leitura é a de que os estrangulamentos no ensino superior se ficam a dever à falta de eficiência no secundário. Há um número muito significativo de alunos que por diversas razões não continua para o superior: reprovação, desistência, mudança para o mercado de trabalho», disse à Lusa Alberto Amaral, presidente da A3ES, a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior.

«É também possível que a crise económica e o desemprego também sejam para alguns alunos um sinal ¿ errado ¿ de que não vale a pena continuar para o superior», acrescentou.

Alberto Amaral acredita que o atual nível de desemprego no país «tornou os alunos muito mais sensíveis a esta questão», o que os leva a evitar áreas como a Engenharia Civil, «devido à crise na construção», ou a educação e formação de professores, «com reputação de emprego difícil».

Ainda que entenda que existe neste momento excesso de oferta no ensino superior, o presidente da A3ES recorda que mesmo a OCDE, num relatório, sublinhou as baixas habilitações da população portuguesa, defendendo que uma racionalização da oferta deve evitar eliminar de forma definitiva a capacidade instalada nas instituições de ensino superior.

«Tem havido um grande divórcio entre as instituições de ensino superior e o tecido produtivo ¿ apesar das recomendações do processo de Bolonha ¿ que leva as instituições a criar novos cursos de acordo com o que pensam serem formações com interesse para o mercado de trabalho, mas que em muitos casos não o são», declarou Alberto Amaral.

De acordo com este quadro, o presidente da A3ES defende o aumento da eficiência do ensino secundário, garantindo que mais alunos prosseguem estudos superiores, e a promoção das instituições, racionalizando a oferta e evitando duplicações de cursos, mas mantendo a capacidade instalada para garantir capacidade de resposta quando houver uma retoma da procura do ensino universitário.

No caso de cursos com uma grande oferta, como Engenharia Civil, Alberto Amaral entende que os cursos se devem concentrar nas instituições que garantem melhores condições e mais qualidade.

Alberto Amaral sugeriu ainda a opção pelo modelo de licenciaturas mais generalistas, guardando as especializações para mestrados e doutoramentos, dando como exemplo o curso de Estudos Gerais, da Universidade de Lisboa, como «uma excelente iniciativa a acompanhar».

Mais de 90% dos candidatos a uma vaga no ensino superior conseguiram colocação na primeira fase do concurso nacional, com 37.415 dos 40.419 estudantes a conseguir colocação numa universidade ou politécnico, e em 60% dos casos no curso desejado.

Educação e Formação de Professores, Engenharias e Agricultura, Silvicultura e Pescas foram áreas menos procuradas pelos candidatos a estudantes do ensino superior.

Na primeira fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior 66 cursos ficaram sem qualquer aluno colocado, quase todos a funcionar em institutos politécnicos e na área das engenharias.