Quinze corpos de bombeiros, de vários pontos do país, têm recebido da Suíça material usado e seminovo encaminhado gratuitamente por um emigrante português radicado naquele país há 37 anos.

"Só pagam o transporte", contou à Lusa Fernando Ribeiro, um ex-bombeiro, de 59 anos, com casa em Amarante, que estima ter enviado para Portugal material no valor de três milhões de euros.

Entre as ofertas, contam-se centenas de equipamentos completos de proteção individual, incluindo casacos, calças, botas, luvas, capacetes e outro tipo de material pesado, como mangueiras, reboques, pás, agulhetas, motobombas e escadas.

"Vou continuar a fazer este trabalho. Não ganho nada com isto. Ganho o reconhecimento, a amizade e o prazer que isto me dá. É a continuação de um sonho", declarou, com a voz trémula de emoção.


Tudo começou, contou à Lusa, em 2003, quando um incêndio quase cercou a sua casa em Amarante. Ao observar, naquele dia, o esforço e o desgaste dos equipamentos dos bombeiros que combatiam o fogo, lembrou-se de, regressado à Suíça, pedir na corporação onde foi bombeiro, em Montreux, algum material que já não era usado, mas que ainda estava em bom estado.

"Falei com os meus colegas da corporação, que se prontificaram a ajudar", recordou.


O primeiro carregamento foi enviado em 2006, para os bombeiros de Amarante, o que foi conseguido com o apoio logístico da autarquia da cidade helvética.

Fernando Ribeiro continuou a ajudar, com mais material, os bombeiros de Amarante, concelho de onde é natural o seu pai.

O emigrante português abordou mais tarde a Federação dos Bombeiros do Distrito do Porto, para reunir contactos de outras corporações. Depois de Amarante, ajudou os Bombeiros da Póvoa do Varzim, terra dos avós maternos. Em 2013, fez chegar à corporação poveira inúmeros equipamentos de proteção individual e outro tipo de material.

Seguiram-se os Bombeiros do Marco de Canaveses.

Desde então, foram ajudadas corporações do norte e centro do país, nomeadamente Vila do Conde, Baião, Leça do Balio, Mesão Frio, Santa Marinha do Zêzere, Felgueiras, Vila Meã, Tondela, Murça, Fafe, Caldas da Rainha e Vila Franca de Xira.

Fernando Ribeiro contabiliza mais de 900 casacos, 260 dos quais novos, 800 calças, 25 motobombas, centenas de botas, dezenas de garrafas de oxigénio, centenas de quilómetros de mangueiras e inúmeras agulhetas e máscaras.

Como contou à Lusa, regularmente, percorre os corpos de bombeiros do cantão de Vaud, para localizar material em bom estado que possa ser enviado para Portugal. Como reconhecimento, diz, sorridente, oferece umas garrafas de vinho do Porto aos bombeiros suíços.

A missão deste emigrante tem sido reconhecida com inúmeras distinções e condecorações que guarda e exibe, orgulhoso, numa vitrina da sala.

Foi agraciado pela Nobre Casa de Cidadania, na Póvoa do Varzim. Foi, também, homenageado pela Federação dos Bombeiros do Distrito do Porto, que atribuiu a Medalha de Ouro de Mérito, cerimónia realizada em Amarante.

É ainda padrinho de duas ambulâncias, uma na Póvoa do Varzim e outra em Amarante.

Rui Ribeiro, comandante da corporação de Amarante, disse à Lusa que a ajuda de Fernando Ribeiro tem sido "muito importante".

"À conta do senhor Fernando, tenho toda a corporação equipada com equipamentos de proteção individual contra incêndios urbanos", afirmou, concluindo: "É uma ajuda que não tem preço".

Sérgio Silva, comandante em Marco de Canaveses, elogia também o emigrante:

"É um homem que percebe o nosso esforço e, sem necessidade, dedica grande parte do seu tempo a trabalhar para nós. É de louvar".