A EDP Distribuição cortou hoje ligações clandestinas de energia no bairro de Contumil, Porto, depois de idêntica operação realizada na quinta-feira no bairro do Lagarteiro, da mesma cidade, anunciou hoje a empresa.

A intervenção de hoje em Contumil, à semelhança da do Lagarteiro, desenvolvendo-se sob vigilância policial, constatou a agência Lusa, que não detetou quaisquer incidentes.

Das pessoas a quem a EDP cortou a energia e que a Lusa ouviu, nenhuma reconheceu ligações clandestinas à rede, apenas dívidas antigas à empresa fornecedora de eletricidade, decorrentes da degradação do seu poder de compra.

«É um desespero. Não sei como pagar a dívida. Não sei o que fazer da vida. Tenho os meus netos a meu cargo, quero fazer-lhes o almoço e não sei como hei de fazer. Não tenho como comprar, não tenho dinheiro, querem desgraçar-me a vida», disse Maria Alice, 51 anos, uma das afetadas pelos cortes de energia.

António rocha, 67 anos, referiu: «Vivo da minha pensão e da da minha mulher, que são uma miséria, somos os dois doentes e hoje vêm-nos fazer isto. Bem expliquei a nossa situação, mas eles não quiseram saber».

Mais compreensivo com a atuação da EDP revelou-se João Tomé, 48 anos. O morador disse que também lhe cortaram a energia, mas repuseram de imediato o fornecimento.

«Provei que tinha contrato», justificou.

Na suja perspetiva, dos cortes de energia deveriam ser excluídos, os que, comprovadamente, revelam insuficiência económica para pagar as contas. Mas só a esses.

«Existe muita gente que merece o corte de energia. Existe muita gente que não paga a luz, água e afins mas em casa tem plasmas, telemóveis topo de gama e outros aparelhos caros», disse, manifestando também concordância com a vigilância policial à operação porque ¿ disse ¿ «nunca se sabe o que vai encontrar aqui».

Contactado pela Lusa a propósito destes cortes de energia, o socialista Manuel Pizarro, vereador da Habitação e Coesão Social, afirmou: «Não tenho nada a dizer, não sou relações públicas da EDP».

Em resposta escrita a pedidos de esclarecimentos da Lusa, a EDP Distribuição referiu que a ação de quinta-feira, no bairro do Lagarteiro, e de hoje, no bairro de Contumil, no Porto, tiveram «apenas e só a finalidade de efetuar o corte de ligações fraudulentas e por isso indevidas».

A empresa observa que nos últimos anos tem «verificado uma tendência de crescimento das fraudes, devido sobretudo ao aumento do número de ligações diretas à rede e manipulação de equipamentos de medição (contadores) de modo a impedir que a energia consumida seja medida na totalidade pelo operador de rede».

Já na quinta-feira, a empresa fez saber que nos últimos anos «tem verificado uma tendência de crescimento das fraudes» e que para fazer face a este aumento, tem «vindo a reforçar as ações de combate à fraude e a mobilizar cada vez mais meios, criando equipas dedicadas atentas aos processos de controlo de sistemas e atividades de suporte».

Os moradores do bairro do Lagarteiro, no Porto, declararam-se «revoltados e tristes» com o «aparato policial» que na quinta-feira envolveu o corte no fornecimento de eletricidade nos 13 blocos do complexo habitacional.

«Nós não somos nenhuns marginais nem delinquentes», afirmou Fernanda Gomes, presidente da Associação de Moradores do Lagarteiro segundo a qual elementos da EDP foram acompanhados ao bairro por várias carrinhas de intervenção policial, criando uma situação «pior do que uma rusga».

A moradora contou ainda que os cortes de eletricidade foram feitos nos 13 blocos do bairro, sem conseguir especificar o número de habitações afetadas.