O advogado José Miguel Júdice, responsável pela defesa do ex-presidente do Banco Privado Português (BPP), João Rendeiro, afirmou esta quarta-feira em tribunal que os investidores da Privado Financeiras queriam ter lucros elevados, mas não estavam dispostos a correr riscos.

João Rendeiro «vai finalmente poder começar a defender-se»

«Estes investidores, alguns deles assistentes neste processo, ganharam muito dinheiro no BPP. Houve casos em que o lucro era de 150% ao ano. Na primeira vez que corre mal [um investimento], queixam-se na justiça. Queriam ter alto rendimento, mas nenhum risco», lançou Júdice durante as alegações iniciais do julgamento do caso «Privado Financeiras».

E reforçou: «Esta ação só nasce disso. Os investidores queriam alto retorno sem risco».

O julgamento de três ex-gestores do Banco Privado Português (BPP), entre os quais o fundador e presidente João Rendeiro, a que se somam Paulo Guichard e Salvador Fezas Vital, arrancou esta manhã, pouco depois das 10:00, em Lisboa.

Refira-se que, dos três arguidos, apenas Rendeiro e Fezas Vital compareceram na sala de audiências do tribunal.

De resto, a sala onde decorrem os trabalhos revelou-se pequena para albergar o elevado número de advogados (14) e o batalhão de jornalistas que seguem a primeira sessão deste julgamento.

Isso mesmo foi reconhecido pelo coletivo de juízes responsável pelo julgamento do processo-crime «Privado Financeiras», liderado por Nuno Salpico, com o juiz presidente a revelar que tinha solicitado uma sala maior para que os participantes no julgamento possam ter melhores condições, mas que não havia disponibilidade hoje para tal suceder.

Tal como havia dito aos jornalistas à entrada do tribunal, Júdice realçou perante o coletivo de juízes que, cinco anos depois da intervenção das autoridades portuguesas no BPP e «milhares de notícias que julgaram» o seu cliente na praça pública «sem ele se poder defender», Rendeiro «vai poder defender-se no sítio certo, que é o tribunal».

Considerando que «a única solução [neste caso] é a absolvição» de Rendeiro, Júdice revelou que, tanto ele, como o fundador do BPP, encaram este julgamento com «otimismo».

Enquanto decorre a investigação do processo principal do caso BPP, relacionado com a primeira intervenção das autoridades no banco, em 2008, e que incide sobre vários aspetos ligados à gestão, aos clientes e ao fisco, vai avançar o processo paralelo relacionado com o veículo criado no universo BPP para investir especificamente em ações do Banco Comercial Português (BCP).

Neste processo-crime da «Privado Financeiras», a investigação começou em fevereiro de 2010 e foi concluída em fevereiro de 2013, tendo o Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC) confirmado a acusação feita pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa em outubro.

Os arguidos, João Rendeiro, Paulo Guichard e Salvador Fezas Vital são acusados pelo Ministério Público (MP) de burla qualificada.