Um cartoon publicado no dia 1 de Agosto no «Diário de Notícias», intitulado «evolução das espécies», está a provocar uma onda de indignação junto da comunidade israelita.

O desenho assinado por André Carrilho mostra um nazi a calcar um esqueleto israelita, que vai «evoluindo» para um soldado israelita que, por sua vez, termina a calcar o esqueleto de um palestiniano, que lhe aponta uma arma ao mesmo tempo.



«É horrível. Penso que terá indignado toda a gente, não só os israelitas. Faz troça das almas e da memória dos seis milhões de judeus executados nos campos de concentração da Alemanha», criticou o presidente da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL), José Carp, ao tvi24.pt.

Tanto a CIL como a embaixada israelita em Portugal asseguram ter enviado cartas de protesto ao director do DN, João Marcelino, já na semana passada, mas garantem não ter recebido resposta. Ao que o tvi24.pt apurou, acabou de chegar uma carta à redacção do DN sobre o assunto, que está a ser analisada pela direcção do jornal.

«Eu até gosto de cartoons, mas há outras maneiras de se fazer as coisas. E há mesmo coisas em que não se tocam, e uma delas é o Holocausto», acrescentou o responsável da CIL.

José Carp garante que foi contactado por outras comunidades israelitas na Europa e nos EUA. «Estão chocadíssimas. Há pessoas que perderam famílias inteiras no Holocausto e troça-se disso? É de um profundo mau gosto», reforçou.

Confrontado com a possibilidade de comparação entre esta reacção e a polémica em 2005, quando o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou um cartoon sobre Maomé, o presidente da CIL lembrou que os cartoonistas dinamarqueses chegaram mesmo a ser ameaçados de morte, rejeitando semelhanças. «Cada um reage à sua maneira e nós optámos pela indignação», disse.

Já o cartoonista André Carrilho negou qualquer posição anti-semita. «Eu tento pôr-me do lado das pessoas vitimizadas. Quis fazer notar que uma pessoa que já foi vítima também se pode tornar agressor», afirmou ao tvi24.pt.

Rejeitando «qualquer julgamento ao povo judeu» (o soldado desenhado simboliza o governo de Israel e não os israelitas) ou «desculpabilização das facções terroristas», André Carrilho lembrou que também já fez cartoons contra os extremistas islâmicos, contra a Igreja Católica, e que nunca recebeu estes «ataques baixos» como resposta. «Parece que de Israel não se pode falar», desabafou.

O embaixador de Israel em Portugal, Ehud Gol, recusou-se a prestar declarações sobre o assunto.