O psicólogo forense Carlos Poiares advertiu hoje que a crise fez aumentar a população que recorre aos tribunais devido à perda das casas e aos divórcios, alertando para o risco de maior exclusão social destas pessoas.

«Esta crise veio acima de tudo criar novas necessidades» que exigem a intervenção da psicologia forense, disse o especialista, em declarações à agência Lusa à margem do Congresso Internacional da Área de Psicologia Forense e da Exclusão Social - Caleidoscópio de Vida, que decorre até sábado em Lisboa.

O psicólogo forense e presidente da Psijus - Associação para a Intervenção Juspsicológica disse na sua intervenção no congresso que «a crise está a levar as pessoas a tribunal e ao aumento das ruturas da conjugalidade», o que «acarreta um nível de exclusão muito elevado e problemas graves ao nível das crianças».

«Na população criminal [nas prisões] os aumentos não são significativos, segundo os dados, mas a população que está em tribunal» por causa de problemas resultantes do desemprego, como a perda da casa por hipoteca, está a aumentar, assim como os divórcios, que trazem «efeitos nefastos», adiantou.

Deu como exemplo os impacto que têm nas famílias, sobretudo nas crianças, as situações de divórcio, de desemprego, o aumento do horário de trabalho e a redução do subsídio de desemprego e do rendimento social de inserção.

«A crise provoca nas crianças um sofrimento inerente ao sofrimento dos pais e da família», porque assistem «à partida dos irmãos mais velhos que tiveram de emigrar devido ao desemprego e veem os pais desempregados», entre outras situações.

Carlos Poiares sublinhou que estas são «novas necessidades» que estão a surgir na área de trabalho da psicologia forense.

«O psicólogo forense não é um assistente social, mas conhece os meandros da exclusão, porque a população forense é cada vem mais uma população que está a paredes meias com uma situação de exclusão», sustentou.

Perante estas situações, Carlos Poiares alertou na conferência, promovida pela Universidade Lusófona, que, «se os poderes continuarem cegos, surdos, mudos e não houver um trabalho psicoinclusivo com estas populações, alguma coisa irá acontecer».

Advertiu também para os riscos de, em tempos de crise, se legislar muito e «nem sempre bem».

«Há áreas que não precisam de tanta lei, precisam é que a lei seja mais ligeira e que produza efeitos», disse, rematando: «Às vezes os governos acham que o PIB aumenta com a produção legislativa».

Para Carlos Poiares, uma «boa maneira» de lidar com esta crise seria baixar o tempo da jornada de trabalho, ao contrário do que tem sido feito: «Podia ser apenas simbólico», mas teria efeitos positivos.

«As pessoas estão desinvestidas e é muito fácil passar para o lado da exclusão, é muito fácil deixar-se de estar integrado», alertou.