O Ministério Público junto do Tribunal de Braga pediu, esta quinta-feira, prisão efetiva para o «falso padre» acusado de furto de arte sacra numa igreja daquela cidade e de burla ao respetivo reitor.

Nas alegações finais do julgamento a procuradora do Ministério Público (MP) considerou provado que o arguido, Agostinho Caridade, furtou duas imagens da igreja de Senhora-a-Branca e que burlou o respetivo pároco em 7200 euros, informou a Lusa.

O MP pediu prisão efetiva face aos antecedentes criminais do arguido, que já soma condenações por burla e usurpação de funções, além de ter outros processos pendentes.

Lima Martins, advogado do arguido, pediu a absolvição, defendendo que o crime de furto não se provou e que a burla não se registou, neste último caso porque Agostinho Caridade apenas terá pedido os 7200 euros emprestados, sendo sua intenção devolvê-los logo que possível.

O arguido, que chegou a ser tratado pelo juiz presidente do coletivo por «senhor padre», negou a prática dos crimes mas mesmo assim pediu «desculpa» às pessoas que poderá ter lesado.

Disse que está a ser alvo de uma «cabala» e «bombardeado» pela comunicação social desde 2004 e garantiu mesmo que escreveu uma carta, cujo conteúdo não revelou, ao Papa Francisco, tendo já obtido resposta.

No seu relatório social, fala-se de 25 anos de «bons serviços» à paróquia da sua terra, de ter estado na origem da fundação do centro social local e de ter integrado uma candidatura autárquica, enquanto militante da JSD.

A leitura do acórdão está marcada para 27 de março.

A acusação refere que Agostinho Caridade, de 41 anos e natural de Aguiar, Barcelos, promoveu um peditório público em vários locais de Braga, como igrejas, em 2012, para o alegado tratamento de um filho seu em Cuba.

Apresentando-se como Vítor Silva, maquinista da CP, foi conquistando a confiança de párocos e sacristães, nomeadamente na Igreja de Senhora-a-Branca.

Em julho desse mesmo ano, pediu 7200 euros emprestados ao reitor dessa igreja, que «condoído» lhe passou dois cheques, totalizando aquele valor.

O arguido foi a uma loja de cópias pedir que lhe assinassem os cheques, conseguindo assim que o banco lhos pagasse.

Agostinho Caridade, que em tribunal se apresentou como sendo «chefe de cozinha», ainda não devolveu o dinheiro ao reitor, mas garantiu que tem uma conta poupança-reforma na Alemanha e está a tentar que o banco o autorize a levantar o dinheiro necessário para saldar a dívida.

Ainda segundo a acusação, a 4 de março de 2013, e também aproveitando a confiança conquistada junto dos responsáveis da Igreja de Senhora-a-Branca, o arguido conseguiu introduzir-se no templo e furtar duas imagens de arte sacra, um Menino Jesus no valor de 2500 euros e uma Senhora da Rosa estimada em 5000 euros.

No dia seguinte, tentou vender as imagens numa casa da especialidade em Braga, mas a gerência desconfiou e chamou a polícia. Agostinho Caridade pôs-se em fuga, deixando as imagens no local.

O arguido negou o furto das imagens, garantindo que elas estavam em sua posse porque trabalharia já há alguns anos como «intermediário» de um presumível comerciante de arte sacra, do qual apenas sabe que se chama «Carlos».

Disse que, na altura, fugiu do local porque ficou «atrapalhado e envergonhado».

Em maio, a Polícia Judiciária deteve-o, em Lisboa, apresentando-o como suspeito da prática dos crimes de furto de obras de arte e bens culturais religiosos, burla, falsificação de documentos e usurpação de funções. Está em prisão preventiva.

Fazendo-se passar por padre, Caridade presidiu a várias cerimónias religiosas um pouco por todo o país, incluindo um casamento na Sé de Braga.