O facto de Estados lusófonos não terem ratificado o Acordo Ortográfico não reduz o poder do português como língua global, apesar de ser desejável um entendimento entre todos os países em relação ao tema, declara um investigador.

«Era desejável que os países lusófonos se entendam em relação a esta revisão, apesar de tudo leve, que houve no português e que alguns Estados já subscreveram. Seguramente é um fator que tem importância institucional», disse esta segunda-feira à agência Lusa o Fernando Luís Machado, vice-reitor para a investigação do ISCTE.

O docente falou durante as comemorações do Dia da Língua e da Cultura na CPLP, que decorreram na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em Lisboa, tendo sido palestrante no evento.

«Julgo que isso [o não entendimento, de forma nenhuma, reduz o poder do português como língua global, com as suas variantes já existentes e, independentemente do Acordo Ortográfico, que tem uma dinâmica muito forte, crescente em todos os planos, económico, cultural e institucional», sublinhou ainda o também sociólogo.

Moçambique e Angola são os únicos países, entre os oito da CPLP, que ainda não ratificaram o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa e pedem, agora, que o Acordo incorpore as «especificidades» linguísticas de cada país.

«Não é apenas a questão da ortografia, da convergência ou não das ortografias que vai colocar em causa o caráter fático do português como uma língua de enorme importância no mundo de hoje», sublinhou ainda o sociólogo, que já participou de estudos sobre a Língua Portuguesa, nomeadamente para o Instituto Camões e para a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).

A FLAD irá receber nesta terça-feira, segundo o professor, um estudo sobre a Língua Portuguesa nos Estados Unidos, realizado por uma equipa ¿ incluindo Machado - de investigadores do ISCTE.

Um dos pontos que o estudo abordou foi a mudança registada entre os falantes de português nos Estados Unidos, onde até aos anos de 1980 eram na maioria portugueses e, nas décadas seguintes, houve um crescimento enorme das comunidades brasileiras e cabo-verdianas naquele país.

Para Fernando Luis Machado, é necessário ensinar o português, independentemente de que país lusófono proporcione este ensino e, ainda, responder à grande procura pelo ensino do português, como acontece nos Estados Unidos e na China.

Durante a sua palestra, Fernando Luís Machado sublinhou também a importância que a Língua Portuguesa tem obtido na Internet (quinta língua mais usada), incluindo em canais como o Facebook (terceira língua) e o Twitter (quarta língua).

O Dia da Língua e da Cultura na CPLP - instituído em 2009 na XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da organização, realizada em Cabo Verde - é celebrado hoje em mais de 30 países.

Também hoje, na sede da CPLP, foi realizado o lançamento simbólico de uma emissão filatélica conjunta dos CTT-Correios de Portugal e os operadores postais dos outros países lusófonos, assinalando os oito séculos da Língua Portuguesa.

É a primeira vez que um mesmo selo irá circular em todos os países de língua oficial portuguesa.

Esta iniciativa foi proposta pela associação «8 Séculos da Língua Portuguesa», que está a promover as comemorações desta efeméride ¿ que decorrem até o 10 de junho de 2015- com uma série de eventos nos países lusófonos, em Macau e na Galiza.

A efeméride foi estabelecida a partir do testamento do rei D. Afonso II, datado de 1214, sendo a referência documental mais antigo escrito em português.

A inauguração da exposição de artistas solidários com a campanha da CPLP «Juntos contra a Fome» também aconteceu hoje, na sede da CPLP.