O piloto da aeronave que aterrou de emergência na praia, na quarta-feira, indicou que ia aterrar na praia da Cova do Vapor, contudo acabou por aterrar na praia de São João. Testemunhos de pessoas que estavam no local revelam que o piloto se aproximou da praia deserta para aterrar, mas levantou voo de novo e aterrou na praia seguinte. Os pontões que delimitam a praia da Cova do Vapor podem ter limitado a aterragem.

Jorge Paulino Pereira, especialista em vias de comunicação e transportes e professor no Instituto Superior Técnico, esteve na 25ª Hora e lembrou que a praia da Cova do Vapor é limitada por dois pontões, que podem ter sido um obstáculo para que a aterragem de emergência fosse feita na praia deserta.

Se repararem, a praia da Cova do Vapor é uma praia que está limitada por dois pontões, ou seja, são dois obstáculos. A Cova do Vapor está limitada por um pontão de um lado e um pontão do outro. Isto quer dizer que a pista de aterragem que o piloto vai utilizar é relativamente curta, quando se compara, por exemplo, com a pista da praia de São João", explicou.

Para o especialista, a intenção do piloto poderia ser aterrar na praia deserta, mas pode ter-se atrapalhado, nomeadamente com o obstáculo dos pontões, e acabou por aterrar na praia seguinte. O professor do Instituto Superior Técnica diz que a informação disponível é pouca e que não é possível ter a certeza do que aconteceu, por isso o caso tem de ser investigado.

Elídio Castro, um concessionário da Praia da Cova do Vapor afirmou à TVI que o piloto ainda terá tentado aterrar na praia deserta.

Eu estava aqui na Cova do Vapor, na minha concessão, e, no bar, apercebo-me que vem o avião e que vem com o motor a falhar. E avisei automaticamente que ele ia aterrar ali, foi o que me pareceu que ele ia aproveitar a dimensão da praia que tínhamos, com muito menos gente, que ele ia fazer ali a aterragem forçada. De repente, vejo que ele acelera e levanta a frente do avião e passa para o outro lado do pontão. Achei estranho porque aquilo era o sítio indicado: ou ele amarava, já que estava com dificuldades antes de chegar a terra ou então era ali, era o único sítio. Mandar-se para aqui para este lado foi uma loucura”, explicou.

Jorge Paulino Pereira explicou ainda que, numa situação de emergência como esta, em que há uma perda do controlo da aeronave, todos pilotos recebem a indicação de que devem sempre evitar zonas residenciais ou zonas onde haja ocupação humana.

Amarar? "Isso é difícil"

Questionado sobre a possibilidade da aeronave amarar ou saltar para a água, Jorge Paulino Pereira explicou que, na prática, isso é um procedimento complexo.

“Isso é difícil. É muito bonito para os filmes de Hollywood, mas depois, na prática, é mais complicado de efetivar”, esclareceu o especialista.

A avioneta que aterrou de emergência estava em voo de treino, com um aluno e um instrutor sénior e com elevada experiência. O professor afirmou que, perante uma emergência, o instrutor pode ou não tomar o controlo dos comandos da aeronave. Contudo, se o instrutor achar que tem as condições necessárias, deve ser ele a gerir uma operação de emergência como esta.

Não sei o que aconteceu concretamente. Felizmente estão os dois vivos e terão de responder perante isto”, referiu.

O especialista explicou também que este tipo de aeronaves, do modelo Cessna 152, são as mais usadas nas escolas de aviação de todo o mundo e que a maioria dos acidentes que ocorrem com estas avionetas são causados por erro humano ou falha técnica.

As comunicações com a torre de controlo do Aeródromo de Cascais revelaram que o piloto da Cessna 152 declarou emergência, indicando “falha do motor”. Para Jorge Paulino Pereira, é agora essencial que se apure que tipo de falha teve o motor e por que razão esta ocorreu.

Os trabalhos de manutenção de uma aeronave obedecem a regras, impostas pelas organizações internacionais responsáveis. O especialista refere que essas regras são cumpridas na maioria das vezes, mas que, neste caso, podem não ter sido tomados todos os cuidados necessários.

Por outro lado, o Aeroclube de Torres Vedras, proprietário da aeronave, fez um comunicado, onde diz que o aparelho tinha todas as revisões e certificações exigidas, ou seja, que estava perfeitamente apto para voar.

Na praia de São João da Caparica estavam, na quarta-feira à tarde, centenas, se não milhares de pessoas.

Até fiquei surpreendido que só houve duas fatalidades”, afirmou Jorge Paulino Pereira.

Recorde-se que duas pessoas morreram na sequência da aterragem de emergência da aeronave, na praia de São João da Caparica, ao final da tarde de quarta-feira. As vítimas são um homem de 56 anos e uma menina de oito.