Médicos especialistas na área da Oncologia apontaram esta quarta-feira o elevado preço dos medicamentos e a demora na sua comparticipação como uma situação "insustentável" e que deveria ser revertida para melhor tratamento dos doentes.

Na V Reunião Anual da Revista Portuguesa de Farmacoterapia "Controvérsias com medicamentos", que decorre hoje em Oeiras, alguns especialistas na área da Oncologia debateram o "Acesso e financiamento da Inovação em Oncologia: para dados diferentes, critérios de avaliação iguais? Que alternativas?".

António Melo Gouveia, do IPO Lisboa e membro da Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica, dedicou a sua intervenção a falar sobre o preço dos novos medicamentos oncológicos e aponta a necessidade de ultrapassar barreiras para mudar a situação.

O preço dos medicamentos oncológicos é crescente de forma não sustentável e pode por em causa os cuidados essenciais e até a própria eficácia dos medicamentos".

O especialista sublinhou que "quem se preocupa de facto com os doentes oncológicos tem obrigação de pugnar pela racionalidade do uso de recursos", acreditando que a gestão dos medicamentos há-se ser resolvida "quando a nível internacional houver revisão dos preços".

Para António Melo Gouveia é necessário "remover barreiras artificiais e demoras por indecisão, pensar em categorias, separar novidades de inovação e, depois, se a ‘porta grande' funcionar, fechar as ‘portas dos cavalos': dispensas em ambulatório não reguladas, autorizações excecionais de rotina".

O responsável defende que "as autoridades têm de procurar o melhor preço possível, que não vai ser milagroso, e articular com a União Europeia".

António Melo Gouveia frisou ainda que genéricos e biossimilares são "meios para libertar verba para a verdadeira inovação".

Decisões rápidas e objetivas, negociação de preços assertiva, eficaz e flexível, implementação rápida de genéricos e biosssimilares e gestão participada dos medicamentos nos hospitais, são as soluções apontadas pelo especialista.

Também a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, Gabriela de Sousa, apontou o tempo de demora na comparticipação dos medicamentos como um "problema insustentável".

Portugal é o segundo país da Europa que mais tempo demora na comparticipação dos medicamentos, um tempo médio de 533 dias, quase dois anos, o que é insustentável. Esta situação gera iniquidade no acesso e essa é a preocupação dos profissionais. Temos rapidamente de reverter isto".

A responsável adiantou ainda que, num inquérito realizado pela Sociedade Portuguesa de Oncologia, apurou-se que 90% dos profissionais discorda de que em Portugal é dado aos doentes com cancro o melhor tratamento médico oncológico, seja qual for o hospital.

Temos que investir na saúde através daquilo que consideramos ser o valor, sabendo separar a inovação da novidade".

A V Reunião Anual da Revista Portuguesa de Farmacoterapia decorre hoje ao longo do dia, no Lagoas Park, em Oeiras, estando em debate temas que têm sido objeto de controvérsia na área do medicamento, como a segurança dos doentes, a diversificação das formas de acesso e os modelos de aquisição centralizada.