O cientista da Universidade de Coimbra Jorge Paiva envia há 25 anos um postal natalício a milhares de pessoas e instituições em todo o mundo a alertar para os mais graves problemas ambientais e ameaças à biodiversidade.

No último quarto de século, Jorge Paiva investiu somas vultuosas, que prefere não divulgar, na impressão e envio pelos Correios dos seus cartões de “boas festas”, que chegam a cidades de todos os continentes.

Aos 82 anos, aposentado, o investigador continua a trabalhar voluntariamente no Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra (UC), onde entra muitas vezes às 07:00.

Todos os anos concebe um novo postal a cores, de quatro páginas, com fotos que obteve durante as missões científicas em que participa nos mais remotos paraísos ambientais do mundo.

À trivial mensagem de “feliz Natal e próspero Ano Novo”, em seis línguas, o botânico de Coimbra, nascido em Angola, junta sempre um texto científico, em Português e Inglês, no qual denuncia os crimes ecológicos mais terríveis da atualidade, desafiando os governos e os povos a salvarem a Terra.

Desta vez, remeteu mais de 2.000 cartões e alguns destinatários até já lhe responderam, como o Jardim Botânico de Copenhaga, na Dinamarca, ou o seu congénere norte-americano de Brooklyn, em Nova Iorque.

“Uma das coisas que me agradou foi chegar este ano, em abril, aos Royal Botanic Gardens de Kew (Reino Unido) e ver que o meu cartão do ano passado estava lá exposto”, regozija-se.

Constituídos por um complexo de jardins, arboretos e estufas, os Reais Jardins Botânicos de Kew, nos arredores de Londres, são um dos mais antigos e maiores jardins botânicos do mundo.

Esta edição, dedicada à longevidade de plantas e animais, exibe um exemplar do pinheiro-ancião (“Pinus longaeva”) com mais de 5.000 anos, fotografado nas Montanhas Rochosas, na América do Norte.

Noutra foto, o próprio Jorge Paiva surge diante de uma tartaruga das ilhas Galápagos (“Chelonoidis nigra”), que chega a pesar 400 quilos, no oceano Pacífico.

Este réptil “raramente atinge 200 anos de idade”, escreve, comparando com o “Homo sapiens”, que nem sempre chega a soprar as 100 velas de aniversário.

“Que a época festiva do final do ano ilumine a consciência humana e não se derrubem árvores, produtoras de biomassa, despoluidoras e fábricas de oxigénio”, deseja o ambientalista no postal deste ano.

Importa, na sua opinião, ter presente “que a Terra é uma gaiola, que está a ser emporcalhada constantemente”, incluindo com poluição que provoca o aquecimento global.

“E ao mesmo tempo estamos a cortar as florestas, os seres vivos que maior quantidade de CO2 absorvem”, adverte.

Jorge Paiva entende, por isso, que as medidas aprovadas na última cimeira da ONU sobre as alterações climáticas, que terminou no dia 12, em Paris, “não são suficientes”.

Subscrito por 195 países, o acordo só entra em vigor em 2020 e prevê que novos modelos económicos reduzam as emissões de dióxido de carbono (CO2) e gases de efeito estufa, substituindo os combustíveis fósseis por energias renováveis.

Mas as florestas estão a ser destruídas “a uma velocidade absolutamente estonteante", a extensão de um campo de futebol em 11 segundos, tanto como “a área de toda a Inglaterra” num ano.

Sobretudo nos países tropicais, “estão a cortar as florestas e não as estão a replantar”. Entre 2050 e 2060, “não vai haver florestas na Terra, não vai haver oxigénio para se respirar”, alerta.