André Carrilho assina a ilustração da capa do «Diário de Notícias» desta quinta-feira. Um cartoon que espelha o «sentimento de raiva» perante o ataque terrorista ao « Charlie Hebdo», mas que também passa «uma mensagem de esperança».


Questionado pela  TVI24, o cartoonista português considerou os acontecimentos desta quarta-feira «traumatizantes», e sublinhou que «vai contra toda a tolerância e pluralismo» e contra a liberdade de expressão.
 

 «Por mais que a intolerância tenha algumas pequenas vitórias, como assassinar alguns dos melhores, não vai conseguir ganhar a guerra».

 
Os «melhores» eram bem conhecidos por André Carrilho, leitor assíduo do «Charlie Hebdo», que admitiu ser uma publicação de referência para si e para a área.
 
Entre os importantes nomes do cartoonismo que morreram na chacina em Paris, Carrilho destacou o contacto que teve com Georges Wolinski.
 
Por duas ocasiões distintas, recorda ter estado com o emblemático desenhador. A mais recente foi no ano passado, no Porto Cartoon, organizado pelo Museu Nacional da Imprensa, onde foi premiada pelas mãos de Wolinski, Presidente do Júri, a sua caricatura de Nelson Mandela.
 
 
Para André, que se iniciou na área com apenas 17 anos, o papel do cartoonismo é «questionar e ser contra o dogma».
 

«O objetivo da sátira é fazer pensar, questionar, e nem sempre dar respostas. Acima de tudo é tentar fazer com que as pessoas pensem além das opiniões já estabelecidas. O humor deve ultrapassar fronteiras de gostos».

 
O ilustrador considera que «há sempre pessoas a fazer com que a arte progrida», destacando, em Portugal, colegas de profissão como António, no jornal «Expresso», Cristina Sampaio, José Bandeira, António Jorge Gonçalves e Augusto Cid.
 
André Carrilho não se recorda de alguma vez lhe terem sido impostos limites, nem tampouco ter sido ameaçado após a publicação das suas ilustrações.
 
 
Em 2010, a publicação do cartoon «Evolução das espécies», no «Diário de Notícias», provocou uma onda de indignação junto da comunidade israelita. Mas, ao contrário do que aconteceu no caso do francês «Charlie Hebdo» e do dinamarquês «Jyllands-Posten», o desagrado não evoluiu para ameaças.
 

«Ameaçado nunca me senti. Já senti, sim, que discordavam, mas também que concordavam. É inerente à profissão».

 
À semelhança desta ilustração, André Carrilho relembrou também o polémico caso do cartoon publicado por António no «Expresso», em 1992, onde retratou o Papa João II com um preservativo no nariz.
 
 

Por tratar «tudo o que está na ordem do dia», o surto do Ébola não podia ficar de lado do trabalho do cartoonista, e a sua ilustração «valeu mais que mil palavras», despertando consciências à escala mundial.
 
 

Em Portugal, Carrilho colabora apenas com o «Diário de Notícias», mas a nível internacional assina cartoons em numerosos meios de comunicação social. Entre eles estão órgãos como o londrino «The Independent», a revista nova-iorquina «Vanity Fair», a «Los Angels Magazine» e a «GQ».
 

Os temas abordados são muitos e diversos e vão desde a política e religião ao cinema.
 
 
 
Porque a vontade de questionar e de fazer pensar não se cala com massacres em redações, o trabalho é para continuar e a luta pela liberdade de expressão também. Motivos que levaram o artista a estar presente na manifestação #JesuisCharlie, esta quinta-feira, na Praça dos Restauradores, em Lisboa.