A manifestação começou de forma calma e pacífica, mas depressa se transformou num barulhento protesto. Centenas de autocarros desfilaram pela ponte 25 de Abril sob um imenso buzinão, organizado pela CGTP, seguidos por dezenas de motards e carros particulares.

Eram cerca das 13h30 quando o autocarro com Arménio Carlos saiu do Marquês de Pombal, em Lisboa, em direção à Ponte 25 de Abril. Na frente da marcha, seguia uma carrinha que identificava o início do protesto: buzinas ecoavam das colunas instaladas no tejadilho e marcava a presença da CGTP nas ruas de Lisboa.

Rumo a Almada, a caravana da Frente Sindical cruzou-se com autocarros que se juntavam à manifestação vindos da Margem Sul, o que fez com que o autocarro que transportava o líder sindicalista não parasse na rotunda do Centro Sul como estava inicialmente previsto.

Ao longo da ponte, durante mais de hora e meia, dezenas de autocarros cumpriam o seu objetivo: manifestar-se contra as medidas do Governo através de um forte buzinão. Chegados a Alcântara, os autocarros foram dispensados, dando lugar a uma manifestação a pé, com gritos de luta. No entanto, nem só de gritos se fez a manifestação. No passeio, um casal de reformados chorava, emocionado pelo mar de gente que construiu a manifestação de 19 de outubro e indignado pelas medidas do Governo.

«Estou emocionado, mas não estou admirado. O povo tem de se mobilizar e não permitir que este Governo continue a massacrar os reformados», desabafou Francisco Garcia, reformado.

Ao longo da manifestação, as palavras de luta são muitas e nem o facto de o protesto a pé pela Ponte 25 de Abril se ter transformado numa caravana de autocarros desanimou os participantes.

«Faz sempre sentido manifestar-se, a pé ou de autocarro. Foi de autocarro e o que faz sentido é estarem aqui estas pessoas todas, vindas elas de onde vierem, como vierem e de que maneiras vierem. Isso é que faz sentido», afirmou Hugo Lopes, que se juntou ao protesto de mota.

No entanto, há quem afirme que a manifestação só não pôde passar a ponte a pé por ser do povo.

«A manifestação não pôde ser a pé, mas as corridas dos ricos podem. Porquê?», questiona Isabel Silva.

Também para Carlos Soares, «a manifestação podia ter sido feita a pé, não havia impedimento nenhum». «Em termos de segurança, desde que a organização fosse da CGTP - que já deu provas que sabe manter a segurança - não havia nenhuma justificação plausível para que esta não se efetuasse».

Numa manifestação dos 8 aos 80, muitos foram os pais que levaram os filhos para a manifestação, encorajando-os a empunhar uma bandeira ou cartaz de descontentamento com o Governo atual.

«Assim têm consciência de que lutamos por eles», dizia uma mãe emocionada enquanto empurrava o carrinho com o filho ao longo da manifestação.

Nem mesmo quando o sol foi substituído pela chuva, os milhares de pessoas que se encontravam em Alcântara abandonaram o local, continuando a ouvir os discursos dos líderes sindicais e assobiando o Presidente da República, pedindo a sua demissão e a do Governo.

«Por que é que não havemos de vir a esta manifestação? Por que é que não nos havemos de manifestar? Está tudo mal, a vida está a inverter-se! Estamos a perder qualidade de vida, achamos que não devemos ficar em casa», ouve-se ao longo da manifestação.

O certo é que ninguém quis ficar em casa e os portugueses aderiram em massa à convocatória da CGTP-IN.

«Os ricos estão cada vez mais ricos e continuam a roubar os reformados», afirma uma senhora junto ao palco onde se ouvem os discursos dos líderes sindicais. Visivelmente emocionada, lamenta-se principalmente pela «muita fome» que se sente em Portugal, afirmando que «o povo deve ter direito à alimentação, à habitação e à educação».

A luta promete continuar até que «a política que este governo está a levar a peito» continue a estar em vigor.