Nos primeiros dez meses deste ano foram enterradas nos cemitérios da cidade de Lisboa 79 pessoas sem-abrigo e sem família, segundo dados da Irmandade da Misericórdia e de São Roque, que já acompanhou quase 1.200 funerais desde 2004.

De acordo com esta instituição católica, que acompanha o funeral de quem morre sozinho, nas ruas ou nos hospitais, sem família ou alguém que reclame o corpo, de janeiro a 15 de outubro realizaram-se 79 funerais. Um número ligeiramente inferior ao registado no mesmo período de 2012, quando a irmandade acompanhou 84 funerais.

Nos primeiros dez meses de 2013, a irmandade fez o acompanhamento funerário de 50 homens, 19 mulheres, três nados mortos e sete homens desconhecidos.

Já entre outubro de 2012 e outubro de 2013, houve 94 funerais, entre 57 mulheres, 22 homens, sete nados mortos e oito pessoas de quem não se sabia a identidade, todos homens.

O trabalho da Irmandade da Misericórdia e de São Roque começa em 2004, ano em que acompanharam 48 funerais nos sete meses de funcionamento.

No total, esta instituição fez o acompanhamento de 1.188 funerais, a maior parte dos quais ¿ 699 ¿ de homens, contra 304 de mulheres. Funerais de pessoas a quem se desconhecia a identidade foram já 89, 76 de homens e 13 de mulheres.

No entanto, não são só os adultos que morrem sozinhos, tendo havido também durante estes nove anos 38 crianças a quem a irmandade teve de fazer o funeral. Destas, 19 eram meninas, 19 eram meninos. Fizeram igualmente o funeral de 58 nados mortos.

Em declarações à agência Lusa, o irmão primeiro vice-provedor adiantou que os funerais não se realizam em função da morte das pessoas, mas sim dos processos administrativos ficarem concluídos. «Ou seja, quando há uma morte, o corpo vai para o Instituto de Medicina Legal (IML), onde é feita a investigação caso haja dúvida quanto ao motivo da morte, e depois tenta-se encontrar os familiares da pessoa e saber se eles reclamam ou não o corpo», explicou Mário Pinto Coelho.

Segundo o responsável, este é um processo que pode demorar no mínimo um mês ou quase um ano, sendo que só no final desse processo é que o corpo é libertado e se pode fazer o funeral.

Também acontece os familiares serem encontrados, mas não querem reclamar o corpo nem ter qualquer responsabilidade na realização do funeral da pessoa defunta, como o caso de um homem cuja morte é conhecida através do senhorio da casa onde vivia.

«O senhorio sabia que ele tinha uma filha, entrou em contacto com ela, disse-lhe que o pai tinha morrido e que ia ser realizado o funeral, mas a filha disse que não tinha nada a ver com isso e nem apareceu», contou Mário Pinto Coelho.

Por esta e outras pessoas, a Irmandade da Misericórdia e de São Roque celebra no dia 17 uma missa de sufrágio para assinalar o Dia Internacional de Erradicação da Pobreza e dos Sem-Abrigo, rezando por todos os que «sem família, sem abrigo e sem amor» morreram na cidade de Lisboa.