O consumo de salsichas, fiambre e presunto, além de outras carnes processadas e fumadas, pode causar cancro do cólon, alerta a Organização Mundial de Saúde (OMS), nesta segunda-feira.
 
O aviso surge depois de um grupo de trabalho da Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC), braço científico da OMS, ter revisto centenas de estudos produzidos neste campo, relativos a vários países e dietas.
 
No final, depois de “encontrarem provas suficientes”, segundo a própria IARC, através de comunicado divulgado, os 22 investigadores de dez países classificaram a carne processada como carcinogénica de Grupo 1 para os humanos. Um grupo do qual também fazem parte o tabaco, o amianto e os combustíveis poluentes como o diesel.
 
Já a carne vermelha, como vaca, borrego e porco, foi considerada como “provavelmente” carcinogénica (Grupo 2 A, do qual faz parte o glifosato, principal ingrediente de muitos herbicidas), devido a “provas limitadas” de que o seu consumo possa causar cancro nos humanos, apesar da existência de ligações aos cancros do cólon, do pâncreas e da próstata.
 
Resumidamente, os investigadores concluíram que cada 50 gramas de carne processada consumidas diariamente aumentam o risco de cancro do cólon em 18%. Uma percentagem que pode aumentar consoante a quantidade de carne processada ingerida diariamente.

“O risco de desenvolver cancro do cólon devido ao consumo de carne processada continua reduzido, mas aumenta com a quantidade de carne consumida”, argumenta a IARC.


O caso português

A Direção-Geral da Saúde reagiu entretanto à notícia, dizendo que o consumo de carne processada não é problemático, desde que seja moderado e em refeições com alimentos protetores, como as frutas e hortícolas.

A propósito do alerta da OMS, a Lusa recuperou o relatório Alimentação Saudável em Números 2014 da Direção-geral da Saúde, onde se constata que o consumo de carne de vaca e de porco tem vindo a diminuir em Portugal desde 2008. Já a carne de aves tem vindo a conquistar maior lugar na alimentação dos portugueses.

“Desde que há registo, inverte-se pela primeira vez uma tendência: a carne de aves (animais de capoeira) cresce ao contrário da de bovino e a de suíno. Mesmo assim, a proporção de proteína de origem animal ainda está acima do desejável”, lê-se no documento, que recorre a dados do Instituto Nacional de Estatística entre os anos de 2008 e 2012.

A carne bovina tinha um peso no consumo de 19,6 quilos por habitante, nesse ano, que baixou para 16,7 em 2012.

Também a carne de porco registou a tendência decrescente, passando de um consumo de 47,1 quilos por habitante para 43,3 quilos/habitante.

Já o consumo de carne de animais de capoeira foi aumentando, de 33,8 quilos/habitante em 2008 para 35,8 quilos em 2012.

De uma forma geral, registou-se entre 2008 e 2012 um decréscimo de consumo do grupo de alimentos “carne, pescado e ovos”, que contudo “não foram suficientes para baixar substancialmente as disponibilidades excedentárias destes grupos”.


Uma oportunidade


A bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento, já se congratulou com a classificação anunciada pela OMS, considerando que esta é uma oportunidade para aumentar o consumo de hortofrutícolas.

“Para os profissionais de saúde, o facto não é novidade. Há estudos que associam estes alimentos ao cancro, assim como identificam os hortofrutícolas como potenciais diminuidores do risco de doença oncológica”


A bastonária reconheceu, em declarações à Lusa, que “não é fácil mudar hábitos alimentares de um dia para o outro”, mas este alerta pode traduzir-se na recuperação do consumo da dieta mediterrânica, que foi abandonada nos últimos tempos.

Já no que toca especificamente às carnes vermelhas, a nutricionista diz que esta apenas deve ser consumida esporadicamente: “Em alimentação não devemos diabolizar alimentos, mas devemos consumi-los com peso e medida”, adiantou.

Alexandra Bento reconheceu aind que “as fileiras vão posicionar-se”, numa referência aos produtores destes produtos.