O cardeal-patriarca de Lisboa lembrou este sábado, na sua mensagem de Natal, os incêndios registados em Portugal, assim como a onda de solidariedade que surgiu nesse período, e chamou a atenção para a necessidade de cuidar dos idosos.

“Estamos a terminar um ano que, entre nós, foi marcado por trágicos incêndios, que vitimaram muitas pessoas e destruíram habitações e outros edifícios, com grave dano para a vida, o trabalho e o sustento de muitas outras também", disse Manuel Clemente.

O cardeal-patriarca acrescentou que este foi também um ano marcado “pela grande solidariedade de tantos que, na altura e ainda agora, estiveram e estão presentes e ativos para minorar e ultrapassar os efeitos da tragédia, com contribuições materiais e pessoais”.

Para o futuro, segundo o patriarca de Lisboa, os portugueses deverão estar mais conscientes do país que é e do que deve ser.

"Mais organizados no território e mais coesos como sociedade, procurando o bem comum de todos", frisou.

Referindo-se ainda aos incêndios, Manuel Clemente destacou também a importância dos idosos como fonte de sabedoria e alertou para a necessidade de serem mais acompanhados.

"Reparámos certamente na grande solidão em que vive uma parte considerável dos nossos concidadãos, sobretudo quando idosos e dispersos por locais isolados. Alguns rostos da tragédia impressionaram-nos especialmente, pelo modo como exprimiam tanta solidão e isolamento", disse.

"É precisamente este ponto que nos deve recordar que, no relato do nascimento de Jesus, o Evangelho não termina no presépio de Belém. Diz-nos que, dias depois, o Menino foi levado por Maria e José ao templo de Jerusalém, para ‘ser apresentado ao Senhor’. Ora, quem lá os recebeu foram Simeão e Ana, ambos bem idosos, que no Menino encontraram a luz e a resposta por que tanto ansiavam (cf. Lc 2, 22 ss)", adiantou.

Esta referência bíblica, explicou, leva a considerar “a existência humana como uma longa expectativa de respostas cabais e profundas, que só o tempo vivido e convivido geralmente pode dar”.

"A essas respostas chamamos “sabedoria”, que é compreensão do verdadeiro sentido e valor das coisas. Como se diz, e bem, é um 'saber de experiência feito', dando à palavra 'experiência' uma grande densidade humana”, sublinhou.

A "última idade de cada um ", acrescentou Manuel Clemente, pode e deve ser isso mesmo, uma idade de quase plenitude pessoal, mesmo quando fisicamente debilitada e carente.

“Cada idoso é uma experiência de vida e uma interpelação à convivência, que nos faz melhores, quando lhe correspondemos. Como Jesus Menino correspondeu à expectativa de Simeão e Ana, correspondamos nós aos membros mais velhos das nossas famílias e da nossa sociedade inteira. E aproveitaremos muito mais a sabedoria que transportam, tão importante para todos”, frisou Manuel Clemente, citando o papa Francisco numa mensagem recente na qual referiu que “quando uma sociedade perde a memória, está perdida”.

Na sua tradicional mensagem de Natal, o cardeal-patriarca evocou ainda uma outra mensagem do papa Francisco sobre os cuidados paliativos.

“Noutra mensagem recente, diz também o Papa Francisco: ‘… devemos e podemos sempre cuidar da pessoa viva: sem abreviar nós mesmos a sua vida, mas também sem nos obstinarmos inutilmente contra a sua morte. A medicina paliativa move-se nesta linha. Ela tem uma grande importância também no campo cultural, comprometendo-se a combater tudo o que torna o ato de morrer mais angustiante e sofrido, ou seja, a dor e a solidão’”.

Manuel Clemente apelou a que neste Natal seja acolhida esta mensagem, “aprendendo com os mais idosos e acompanhando-os até ao fim natural das suas vidas”.