O comandante dos bombeiros de Castanheira de Pera disse que seis meses após o incêndio de Pedrógão Grande não há nada que possa apagar aquilo que se viveu nem a perda do elemento da sua corporação, Gonçalo Conceição.

"Seis meses após o incêndio, por mais que o tempo passe, não há nada que apague da memória aquilo que se viveu e a perda do Gonçalo Conceição", afirmou à agência Lusa José Domingues.

O comandante da corporação dos voluntários de Castanheira de Pera sublinha que, por mais tempo que passe, "as coisas são muito difíceis".

Quanto à constituição como arguidos, no âmbito da investigação ao incêndio de Pedrógão Grande, de Mário Cerol, o número dois do Comando de Operações de Socorro de Leiria, e de Augusto Arnaut, comandante dos bombeiros de Pedrógão Grande, disse esperar que se trate apenas de "uma situação protocolar".

"Estamos com as mentes descansadas sobre o que fizemos. Estou solidário com eles", sustentou.

José Domingues entende que deve ser colocada "uma pedra sobre o assunto", independentemente de algumas pressões que possam existir.

"Se alguma coisa acontecer a qualquer um deles e espero que não, temos que demonstrar que estamos vivos e que sabemos aquilo que queremos", frisou.

O comandante de Castanheira de Pera realça que não há ninguém perfeito: "São coisas que quem de direito tem que saber avaliar".

Já o seu homólogo de Figueiró dos Vinhos disse sobre o incêndio que os bombeiros se limitaram a fazer o seu trabalho.

Paulo Nogueira realçou que o trabalho dos bombeiros continua a ser o mesmo, ou seja, socorrer pessoas e bens da mesma forma: "O nosso trabalho é esse".

Adiantou ainda que, apesar da tragédia que se viveu, está cético de que as coisas sofram grandes alterações no futuro.

"Houve demasiada politização desde o início, até a nível operacional. Eu falo como bombeiro, que não tenho quem me defenda. A ANPC é um órgão estatal. Os bombeiros, infelizmente e se calhar por culpa própria, não têm um comando próprio. E, aí, o Estado faz o que quer e o que entende. Política em cima disto vai ser a mesma coisa", concluiu.

Saúde do Centro mantém acompanhamento na área da saúde mental 

A Administração Regional de Saúde do Centro (ARSC) continua a prestar apoio psicológico às vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande e nesta quadra natalícia os profissionais decidiram não tirar férias para garantirem ajuda a quem precisa.

"A grande maioria das pessoas, felizmente, não precisa de ajuda. Há outras que sim. Vão precisando, por crises de ansiedade, depressão, e que nós temos estado a acompanhar, na medida do possível, e vamos continuar. Já estávamos antes [dos incêndios], estivemos durante e vamos continuar", disse à agência Lusa António Pires Preto, Coordenador Regional para a Saúde Mental da ARSC.

O responsável, que também é diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), realça nesta quadra de Natal o "profissionalismo exemplar" e a "capacidade física" dos profissionais que estão no terreno e que decidiram não tirar férias nesta altura, para apoiarem as pessoas, pois é provável que "se deprimam mais".

"Eles decidiram não tirar férias nesta altura e muitos deles tinham férias. É um orgulho ter profissionais assim", comenta.

António Pires Preto indica que o apoio na área da saúde mental vai continuar a ser dado às vítimas dos incêndios, "porque essas coisas não acabam no dia 30 seja lá de que mês for".

"Vai ter continuidade, vão aparecendo coisas, dependendo das fases em que vamos estando e nós vamos continuando atentos, vamos continuando a fazer aquilo que sempre fizemos e que penso que fizemos bem", disse.

Segundo o responsável, só pelos profissionais do Serviço de Psiquiatria do CHUC, nos últimos seis meses, em Pedrógão Grande (incêndio de junho) e na zona de Oliveira do Hospital (incêndio de outubro), foram feitas "acima das mil intervenções" no terreno.

Passados seis meses do incêndio de Pedrógão Grande, o Coordenador Regional para a Saúde Mental da ARSC admite que, em termos de capacidade de resposta, "há sempre alguma coisa para melhorar", mas reconhece que "as coisas correram bem" dentro do que deve ser feito nessas situações.

"Eu acho que fizemos aquilo tudo que é recomendado, que felizmente tem sido reconhecido por pessoas muito respeitadas em termos de saúde, em termos de saúde mental, que nos deixa de consciência tranquila", disse à Lusa.

Explicou ainda que os serviços de saúde na região Centro, concretamente na zona de Coimbra, tiveram "uma vantagem em termos de saúde mental" porque existe uma política de proximidade.

"Isto é, os psiquiatras, os psicólogos, os enfermeiros de saúde mental, o serviço social, a trabalhar junto das populações e a estar perto das populações. E nós já estávamos na zona onde isso aconteceu. Já conhecíamos as pessoas, já tínhamos pessoas referenciadas que tinham mais problemas em termos psiquiátricos, em termos de saúde mental. Portanto, tivemos alguma vantagem nisso", esclareceu.

Quando a tragédia de Pedrógão Grande aconteceu, houve necessidade de reforçar as equipas nos mais variados sítios e António Pires Preto admite que houve uma colaboração "exemplar" entre as várias entidades.

O incêndio que deflagrou há seis meses no concelho de Pedrógão Grande e que alastrou a concelhos vizinhos fez 66 mortos e 253 feridos, sete dos quais graves, destruiu meio milhar de casas e quase 50 empresas.

Quarenta e sete das vítimas mortais seguiam em viaturas, no dia 17 de junho, e ficaram cercadas pelas chamas na EN (estrada nacional) 236-1, entre Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos ou em acessos a esta via.

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