O especialista em incêndios florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Paulo Fernandes estima um verão quente em fogos, caso não chova no próximo mês e tendo em conta o inverno ter sido seco.

“Existe um potencial que predispõe para uma atividade de fogo acima da média. Neste momento isso está presente, e se não chover substancialmente vai tender a agravar-se”, disse à agência Lusa o investigador do Centro de Investigação e de Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB) da UTAD.

Ressalvando que a “esta distância é sempre difícil prever ou adivinha” o verão, Paulo Fernandes adiantou que, caso não chova no próximo mês, estão “reunidas as condições para uma área ardida substancial”.

O investigador da UTAD considerou também que um dado muito importante para os fogos é “a severidade meteorológica em julho agosto e setembro”.

“É muito importante as condições que se vierem a sentir naqueles dias mais extremos, porque normalmente a área ardida está concentrada em uma ou duas semanas”, sustentou, realçando que “as condições meteorológicas são decisivas” para os incêndios florestais.

Sobre o número de incêndios que deflagraram este ano, quase cinco mil, o investigador explicou que “sempre que o inverno é seco, a área ardida pode ser significativa em fevereiro, março e abril” e foi o que aconteceu, uma vez que é, nessa altura, que as pessoas utilizam mais o fogo, especialmente os pastores, e o dispositivo ainda está num nível de prontidão reduzido.
 

Faltam bombeiros florestais e há muitos meios aéreos
 

Paulo Fernandes considerou, ainda, que há “um desequilibro no investimento ao combate” aos fogos, apontando a falta de bombeiros florestais e o excesso de meios aéreos.

“O nosso dispositivo, para a dimensão do país, talvez se possa considerar sobredimensionado”, disse à agência Lusa o investigador do Centro de Investigação e de Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), a propósito da fase Bravo de combate a incêndios florestais, que começa na sexta-feira.

Como exemplo, referiu que “é excessivo” o número de meios aéreos, que se reflete num “desequilíbrio de investimento no combate”.

Paulo Fernandes adiantou que “os meios aéreos têm uma relação custo/benefício muito alta” e “aquilo que fazem não compensa de modo nenhum os custos que têm”.

“Existe a perceção pública de que com mais meios aéreos se consegue atacar melhor os incêndios, a verdadeira solução está no terreno, não está no ar”, disse, apontando a falta de “especialização e profissionalização” dos bombeiros, apesar de Portugal ter os meios e feito investimento nos últimos anos.

Os incêndios florestais mais do que quintuplicaram este ano em relação a 2014, tendo-se registado 4.320 fogos desde o início de 2015, segundo dados enviados à agência Lusa pela Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC).

A ANPC, que cita dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), entidade que colige a informação relativa às ocorrências, adianta que se registaram, até 05 de maio, 4.320 incêndios florestais, mais 3.474 do que no mesmo período do ano passado, quando ocorreram 846 fogos.

Um estudo recente do Centro de Investigação e de Tecnologias Agroambientais e Biológicas da UTAD revela que Portugal é o país do mediterrâneo com mais incêndios.

Segundo o estudo da universidade de Vila Real, Portugal registou mais de um terço dos incêndios nos países da bacia do Mediterrâneo, cerca de 10 mil em 19 mil contabilizados entre 2000 e 2013.

Além de Portugal, foram analisados dados de Espanha, Itália, Grécia e França, que permitiram aos especialistas conhecer as dinâmicas dos fogos, a recorrência e qual o tipo de vegetação que mais arde.

O trabalho revelou que Portugal contabilizou “mais de um terço do número total de incêndios da Europa e um pouco menos de um terço do total de área ardida”.

O outro estudo da UTAD concluiu também que um em cada quatro incêndios florestais a norte do rio Douro ocorre em áreas já queimadas nos dez anos anteriores.