O juiz espanhol Baltasar Garzón e o escritor italiano Roberto Saviano condenaram hoje em Lisboa a forma como o Ocidente lidou com o avanço do grupo extremista sunita Estado Islâmico (EI) na Síria e no norte do Iraque.

Saviano e Garzón - que se tornaram figuras públicas devido à denúncia que fizeram de crimes violentos, da Camorra, da máfia napolitana e do regime do ditador chileno Augusto Pinochet, respetivamente – referiam-se ao facto de uma coligação internacional liderada pelos Estados Unidos estar a tentar deter, por meio de ataques aéreos, a expansão da esfera de influência do EI em território sírio e iraquiano.

«Como sempre, é mais fácil bombardear um país, ou uma zona de um país, do que analisar as causas de um determinado conflito e tentar solucioná-lo através do direito ou da diplomacia», observou o magistrado espanhol, acrescentando que mesmo o Conselho de Segurança da ONU ainda não conseguiu, desde 1999, pôr-se de acordo sobre a própria definição de terrorismo.

Garzón e Saviano falavam numa conferência de imprensa por ocasião do lançamento mundial do último e inacabado romance do prémio Nobel da Literatura português, José Saramago, intitulado «Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas» (Porto Editora) e cujo ponto de partida é a história de um homem que, trabalhando numa fábrica portuguesa fornecedora de armamento às tropas de Franco durante a Guerra Civil de Espanha, escolhe, em vez de pólvora, pôr dentro de um morteiro um papel em que escreveu 'Esta bomba não rebentará'.

Segundo Baltasar Garzón, «existe atualmente uma obsessão militarista» e, embora a assinatura de «um tratado mundial contra a indústria armamentista seja pura utopia», tal não significa que se desista de lutar civicamente.

Embora concordando com o juiz espanhol que em 1998 emitiu um mandado de captura para Pinochet, o jornalista e escritor italiano que se celebrizou ao publicar, em 2006, o polémico livro «Gomorra» e que ainda hoje tem a cabeça a prémio, deslocando-se sempre acompanhado de guarda-costas, classificou o que está a acontecer na Síria e no norte do Iraque como «uma tragédia».

«Agora, é demasiado tarde para a diplomacia. Na Síria, por exemplo, deixaram aniquilar a oposição laica – ora, quem nos podia dizer o que fazer nesta zona do globo eram, precisamente, os dissidentes laicos. E até o papa disse que existe uma violência legítima», comentou.

«A tarefa do intelectual, hoje em dia, é perguntar-se como é que chegámos aqui e porquê», defendeu Saviano, citando, a propósito, um documentário intitulado «Everyday Revolution», da autoria de dois irmãos iranianos, que defende a tese de que «como se trata de movimentos sem líderes, o Ocidente não percebeu com quem haveria de falar, achou que não tinha interlocutor».

Por sua vez, Garzón chamou a atenção para a ingrata situação dos curdos: «A principal linha de resistência ao Estado Islâmico é o povo curdo, mas quando acabar este combate, vamos confrontar-nos com um povo ao qual cinco países negam a existência enquanto nação, o Curdistão».